O último capítulo do tão aguardado remake de “Vale Tudo” foi ao ar e, em vez de aplausos, gerou uma onda de choque, incredulidade e revolta. A conclusão da trama foi descrita por críticos e pelo público como um verdadeiro escárnio, uma piada de mau gosto que desrespeitou não apenas a inteligência do espectador, mas o legado de um dos maiores clássicos da teledramaturgia brasileira. Mal dirigido, mal executado e repleto de furos de roteiro, o episódio final foi a síntese de um projeto que, desde o início, pareceu perdido e sem alma.
A decisão de trazer Odete Roitman (Débora Bloch) de volta dos mortos foi o estopim da controvérsia. Embora a possibilidade de sua sobrevivência já tivesse sido especulada, a forma como isso foi apresentado na tela desafiou a lógica e a coerência. O resultado foi um final que, em vez de amarrar as pontas soltas, criou uma enxurrada de novas perguntas, deixando o público com a amarga sensação de ter assistido a uma história que se desfigurou por completo em sua reta final, sem se dar ao trabalho de responder às próprias inconsistências.
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O Milagre que Nem a Medicina Explica: A Sobrevivência de Odete
O ponto central da polêmica foi a “ressurreição” de Odete Roitman. Após ser baleada por Marco Aurélio (Alexandre Nero) na região do abdômen, sangrar abundantemente e ser declarada morta por um legista, a vilã foi colocada dentro de um saco preto e retirada do Copacabana Palace. Pouco depois, já dentro de uma ambulância, ela simplesmente deu um “suspiro de ressurreição” e se levantou sozinha, sem qualquer intervenção médica.
Essa sequência foi classificada pela médica anestesiologista Raíssa Porto como um “total descomprometimento da teledramaturgia com a realidade”. A especialista, em entrevista ao Notícias da TV, apontou os erros grosseiros da cena, explicando que um tiro em uma “região nobre” causaria uma perda de sangue massiva que a impediria de acordar daquela forma. Além disso, a cirurgia necessária seria complexa, exigindo monitores, intubação e transfusão de sangue, o que torna a operação em um casebre clandestino ainda mais absurda.
A médica também criticou duramente a falta de verossimilhança no procedimento cirúrgico mostrado. Em uma publicação nas redes sociais, ela questionou “quem anestesiou Odete Roitman?”, apontando que seria impossível para a vilã permanecer serena e imóvel enquanto era operada sem sentir uma dor excruciante. A ausência de um simples acesso venoso ou de qualquer monitoramento foi vista como uma falha gritante, que transforma o trabalho médico em uma espécie de passe de mágica.
No fim das contas, o grande mistério de “quem matou Odete Roitman?” nunca existiu, pois a bilionária sobreviveu a tudo: ao tiro, a um legista aparentemente distraído ou subornado, a uma cirurgia ilegal e, por fim, à própria morte. A ousadia do roteiro foi tão grande que nem a invenção de um “multiverso da novela” conseguiria explicar o milagre, que rapidamente virou motivo de memes e risadas nas redes sociais.
Uma Enxurrada de Perguntas Sem Resposta
Além da implausibilidade médica, o capítulo final deixou uma série de furos de roteiro que demonstram o descuido com a narrativa. A novela terminou sem responder a perguntas básicas que surgiram a partir da sobrevivência de Odete. Por exemplo, como a vilã, recém-operada e em fuga, conseguiu ligar para seu cúmplice Freitas (Luis Lobianco)? A trama não oferece nenhuma explicação para esse detalhe crucial.
Outra pergunta fundamental que ficou no ar é: que corpo foi enterrado em seu lugar? A troca de corpos é um elemento central para que seu plano de fuga funcionasse, mas a novela simplesmente ignora essa questão, esperando que o público aceite o fato sem questionar. A falta de lógica se estende a outros personagens, cujos arcos foram encerrados de maneira apressada e sem sentido.
Por que César (Cauã Reymond), um personagem que se tornou bilionário, iria atrás de Fátima (Bella Campos) e de um fazendeiro para aplicar um novo golpe? Essa atitude não condiz com a sua nova realidade financeira e parece uma decisão forçada para dar um desfecho ao personagem. Da mesma forma, o destino de Heleninha (Paolla Oliveira), que tecnicamente seria cúmplice na morte da mãe, ficou em aberto, sem que a novela indicasse se ela responderia ou não pelo crime.
Um Final à Altura da Bagunça: A Crítica à Execução
A impressão que o último capítulo deixou foi a de que a autora estava com “preguiça de escrever” e decidiu empurrar qualquer coisa para encerrar a história. Essa percepção é reforçada pela quantidade de pataquadas vistas em cena. O episódio não foi apenas um ponto fora da curva; foi o fechamento perfeito para uma novela que, segundo a crítica, foi mal dirigida e mal executada do início ao fim, um desfecho à altura da bagunça que o antecedeu.
O problema de “Vale Tudo”, no entanto, não esteve apenas em seu final, mas em sua estrutura. Desde os primeiros capítulos, a novela parecia perdida, sem rumo, tentando se vender como uma releitura moderna, mas resultando em uma “colagem malfeita de situações forçadas”. Os diálogos não tinham peso e os personagens careciam de coerência, mudando de personalidade de um capítulo para o outro de forma abrupta e injustificada.
Faltou direção, propósito e cuidado, enquanto sobrou arrogância por parte da equipe. A produção parecia acreditar que bastaria citar nomes icônicos e usar uma trilha sonora nostálgica para recriar a grandiosidade da obra original. Contudo, a novela de 1988 era um estudo profundo sobre caráter e ética, enquanto esta nova versão se focou apenas em vaidade e oportunismo, tanto na tela quanto fora dela.
A narrativa foi conduzida em “piloto automático”, com arcos que eram abertos e logo depois abandonados, e situações absurdas que surgiam sem qualquer consequência lógica. O público, que foi tratado com descaso, percebeu cada inconsistência e cada cena preguiçosa. Por essa razão, o desastroso capítulo final fez sentido dentro da própria ruína que a novela construiu ao longo de sua exibição: ele não foi uma exceção, mas a síntese de um projeto problemático.
Conclusão: Um Arremedo Vazio que Mancha um Clássico
Ao final, o sentimento que prevalece é o de frustração. O público, que esperava rever a força e a complexidade de “Vale Tudo”, recebeu em troca um arremedo vazio, uma paródia sem graça de um clássico que permanece intocável. A versão original marcou época porque tinha algo que este remake nunca conseguiu encontrar: verdade. A tentativa de recriar a magia se provou um fracasso, resultando em um produto final sem dignidade.
O último capítulo serviu como o retrato final de um projeto que, infelizmente, começou errado e terminou da pior maneira possível. A ressurreição de Odete Roitman e os inúmeros furos de roteiro não foram apenas erros de escrita, mas o símbolo de um profundo desrespeito com uma obra que faz parte da história cultural do país. O remake de “Vale Tudo” será lembrado não por sua qualidade, mas por seu final inacreditável e decepcionante.









