O apresentador Marcelo Castro, atualmente no comando do programa “Alô Juca” na TV Aratu, afiliada do SBT na Bahia, sofreu uma derrota judicial significativa. O jornalista foi à Justiça em uma tentativa de censurar previamente uma reportagem da Record, programada para ir ao ar neste fim de semana no “Domingo Espetacular”. Seu pedido de liminar, no entanto, foi negado.
Castro é réu na Justiça baiana, acusado de liderar uma organização criminosa que teria desviado mais de R$ 500 mil. As doações foram feitas por telespectadores via Pix para ajudar pessoas carentes que apareciam no programa “Balanço Geral Bahia”, da própria Record, onde o apresentador trabalhava entre 2022 e 2023. A reportagem da Record promete trazer, pela primeira vez, entrevistas com as vítimas do suposto esquema.
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A Tentativa de Censura na Justiça
A coluna Outro Canal, da Folha de São Paulo, teve acesso aos documentos do pedido de liminar feito por Marcelo Castro. O caso foi protocolado na 4ª Vara Cível de Salvador e apreciado no início da noite de sexta-feira (15) pelo juiz João Garcia Perez Garcia. A defesa do apresentador tentou barrar a exibição da matéria com argumentos focados em sua imagem pública.
Em seu pedido, Castro alegou que a reportagem da Record tem o objetivo claro de “prejudicar sua imagem pública, tendo em vista ser um grande âncora jornalístico, líder de audiência em seu horário”. Os advogados do jornalista também afirmaram que a emissora estaria tentando macular a opinião pública intencionalmente, às vésperas da audiência de instrução do caso, marcada para acontecer ainda neste mês de novembro.
A defesa concluiu o pedido de censura prévia alertando para os danos da exibição. “A reportagem anunciada poderá ser veiculada a qualquer momento, alcançando público de ampla dimensão e provocando abalo imediato e irreversível à imagem e à reputação profissional de Marcelo Castro”, argumentou a defesa.
Justiça Nega Liminar e Cita “Interesse Público”
O magistrado João Garcia Perez Garcia negou o pedido de liminar de Marcelo Castro. Em sua decisão, o juiz avaliou que não foram apresentados argumentos no pedido que comprovassem um possível “ar sensacionalista” por parte da reportagem da Record. Além disso, o juiz ressaltou que o caso é de claro interesse público.
A decisão também abordou a alegação de quebra de sigilo judicial. “A alegação de que a reportagem viola o segredo de justiça de um processo criminal, por si só, não autoriza a proibição de sua divulgação”, afirmou Garcia. “É necessário ponderar o interesse público na informação e a proteção da honra”, concluiu o magistrado em sua decisão.
Procurada, a Record informou que não se manifesta sobre casos jurídicos. A defesa de Marcelo Castro não respondeu.
Relembre o Escândalo do “Golpe do Pix”
O caso que motiva a reportagem da Record estourou em 2023 e resultou na demissão de Marcelo Castro da emissora. Na época, ele atuava como repórter do “Balanço Geral Bahia”. A Justiça acusa Castro de liderar uma organização criminosa composta por 12 pessoas, dedicada a desviar doações feitas por telespectadores a pessoas necessitadas.
O esquema, que teria ocorrido entre 2022 e 2023, funcionava de forma simples: durante as reportagens de ajuda, as chaves Pix exibidas na tela do programa não pertenciam às vítimas, mas sim a pessoas ligadas ao grupo criminoso. Após o programa, o montante arrecadado era distribuído internamente, seguindo orientações dos líderes.
De acordo com a investigação, o grupo teria se apropriado de R$ 407,1 mil, o que equivale a 75% do total de R$ 543 mil doados. A Justiça detalha que R$ 146,2 mil teriam ficado diretamente com Marcelo Castro, e R$ 145,7 mil teriam sido repassados a Jamerson Oliveira, ex-editor-chefe do “Balanço Geral”.
Como a Fraude Foi Descoberta
O esquema só foi descoberto em março de 2023, graças a uma doação de R$ 70 mil feita pelo jogador de futebol Anderson Talisca. O valor era destinado ao tratamento de Guilherme, um menino de 1 ano que lutava contra um câncer. Ao entrar em contato com Marcelo Castro, um assessor do jogador percebeu que o número do Pix repassado privadamente não era o mesmo que havia aparecido na televisão durante a reportagem.
A discrepância levantou suspeitas e iniciou a investigação interna na Record, que culminou com a demissão de Castro e Oliveira. Tragicamente, a criança mostrada na reportagem morreu semanas após a descoberta do golpe. Tanto Marcelo quanto Jamerson negam publicamente qualquer envolvimento no caso.
A Volta por Cima no SBT
Após a demissão, a dupla criou o site “Alô Juca”, que rapidamente se tornou um sucesso nas redes sociais. Com o êxito online, eles foram contratados pela TV Aratu, afiliada do SBT na Bahia. Desde abril do ano passado, o “Alô Juca” virou um programa diário e acirrou a briga pela audiência na hora do almoço (entre 11h e 14h), passando a disputar a liderança local com a Globo e a própria Record.
Apesar do sucesso no SBT, o caso continua rendendo dores de cabeça a Castro. Em março deste ano, o apresentador foi condenado em primeira instância a indenizar a Record em R$ 10 mil, sob a acusação de ter prejudicado a imagem da emissora com o escândalo.







