A noite desta terça-feira (18) marca um encerramento abrupto e melancólico para uma das apostas da Globo no setor de entretenimento. A emissora decidiu antecipar o fim da segunda temporada do humorístico “Aberto ao Público”, comandado pelos comediantes Maurício Meirelles, Bruna Louise, Murilo Couto e Thiago Ventura. O programa, que tinha previsão de exibir oito episódios, encerrará sua trajetória com apenas sete capítulos levados ao ar, deixando material inédito na gaveta.
A decisão de cortar o último episódio, que estava originalmente agendado para o dia 25 de novembro, foi justificada oficialmente por ajustes na grade de programação esportiva. No entanto, nos bastidores, o clima é de que a atração se tornou “sacrificável” diante dos números de audiência, que vinham sofrendo quedas consecutivas. O cancelamento da exibição final levanta dúvidas sérias sobre o futuro do formato na televisão aberta para o ano de 2026.
Enquanto o humor enfrenta crise, a dramaturgia vive um momento de euforia no streaming. A Globo começou a avaliar seriamente a produção de uma terceira temporada da aclamada série “Justiça”, impulsionada pelo sucesso estrondoso do remake de “Vale Tudo” em 2025. A autora Manuela Dias, responsável por ambas as obras, tornou-se peça-chave na estratégia da emissora para manter a liderança no Globoplay.
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O Fator Futebol e a “Desculpa” da Grade
A justificativa oficial para o corte do episódio final de “Aberto ao Público” envolve o calendário apertado do futebol brasileiro. Com o Campeonato Brasileiro entrando em sua reta final decisiva, a Globo precisou remanejar suas faixas horárias para acomodar jogos cruciais envolvendo Flamengo e Palmeiras. Ambos os times estão envolvidos na disputa da final da Libertadores, marcada para o dia 29, o que forçou a antecipação de partidas da liga nacional para a terça-feira, dia 25.
Dessa forma, o horário que seria destinado ao humorístico foi engolido pelo esporte, que tradicionalmente entrega números mais robustos de audiência e faturamento comercial. A emissora optou por não realocar o episódio final para outra data, preferindo simplesmente descartar sua exibição na TV aberta. Essa atitude demonstra que o programa não é visto como uma prioridade estratégica neste momento do ano.
Para piorar a situação do humorístico, a semana seguinte, dia 2 de dezembro, já estava comprometida com outro projeto. A Globo exibirá o último episódio de “Vida de Rodeiro”, um documentário que explora a vida dos atletas peões pelo Brasil. Como essa produção possui uma duração mais longa, não haveria espaço na grade para encaixar o episódio perdido de “Aberto ao Público”, selando o destino da atração comandada pelo quarteto de humoristas.
A Sombra de “A Fazenda 17” e a Queda de Audiência
Embora o futebol seja o motivo logístico, a realidade dos números aponta para um desgaste do formato diante da concorrência. O “Aberto ao Público” até iniciou sua segunda temporada com desempenho satisfatório, aproveitando a força dos seus apresentadores nas redes sociais. Contudo, a situação mudou drasticamente a partir do final de outubro, quando o reality show “A Fazenda 17”, da Record, ganhou tração e começou a incomodar a liderança da Globo.
Na semana passada, o sinal de alerta soou com força máxima nos corredores da emissora. O humorístico marcou apenas 7,9 pontos de audiência na Grande São Paulo, sendo superado pela Record, que registrou 8,1 pontos com o reality rural comandado por Adriane Galisteu. Considerando que cada ponto equivale a cerca de 199 mil telespectadores, a derrota foi significativa e expôs a fragilidade do programa em reter o público no horário nobre tardio.
Essas derrotas consecutivas para a concorrência pesaram na decisão de não fazer um esforço extra para exibir o último episódio. A lógica interna é implacável: se o programa não consegue vencer a Record em dias normais, não há motivo para criar malabarismos na grade para salvá-lo. A antecipação do fim serve também para estancar a sangria de audiência nas noites de terça-feira.
Maurício Meirelles Tenta Contornar a Crise
Diante das notícias sobre o corte, o humorista Maurício Meirelles utilizou suas redes sociais para tentar controlar a narrativa. Em vídeo divulgado aos fãs, ele negou veementemente que o programa tenha sido “cancelado” por baixa audiência, insistindo na tese de que a não exibição na próxima semana se deve exclusivamente ao calendário do futebol. Meirelles tentou desvincular a decisão da performance ruim no Ibope.
Entretanto, o humorista deixou uma lacuna importante em sua explicação: ele não confirmou se ou quando o episódio faltante seria exibido, nem garantiu o retorno da atração na semana seguinte, o que corrobora a informação de que a temporada foi, de fato, encurtada. Essa postura defensiva é comum quando talentos tentam proteger a imagem de seus produtos, mas os dados de audiência são públicos e inegáveis.
A Globo, por sua vez, mantém o futuro da atração em aberto. A emissora informou que ainda não decidiu se “Aberto ao Público” fará parte da programação em 2026. Uma avaliação minuciosa dos resultados será feita para entender se vale a pena investir em uma terceira leva de episódios ou se o formato já deu o que tinha que dar, especialmente considerando que foi gravado em um teatro em São Paulo com convidados de peso como Rafa Kalimann e Gil do Vigor, o que gera custos de produção.
O Sucesso de “Vale Tudo” Ressuscita “Justiça”
Enquanto o humor sangra, o drama respira aliviado. A Globo está extremamente satisfeita com os resultados digitais da novela “Vale Tudo”, remake escrito por Manuela Dias que foi ao ar em 2025. Em setembro, a trama assumiu o posto histórico de novela mais assistida da história do Globoplay, provando que o investimento em clássicos repaginados e textos densos agrada em cheio ao assinante do streaming.
Esse sucesso reaqueceu o interesse da diretoria em encomendar uma terceira temporada da série antológica “Justiça”. A segunda temporada, lançada em 2024, já figura como uma das três séries originais mais vistas da plataforma. A combinação do êxito de “Justiça 2” com o fenômeno de “Vale Tudo” colocou Manuela Dias em uma posição de prestígio raríssima dentro da emissora, com carta branca para propor novos projetos.
A ideia de uma “Justiça 3” agrada não apenas pelos números, mas pelo prestígio da marca. A autora já manifestou publicamente seu desejo de continuar a franquia, sugerindo inclusive a possibilidade de ambientar a nova trama em uma cidade fora do eixo Rio-São Paulo. A primeira temporada se passou no Recife e a segunda em Ceilândia (DF), descentralização que foi muito elogiada pela crítica e pelo público.
Estratégia para o Streaming e Orçamento Aprovado
A Globo entende que precisa de produtos fortes e exclusivos para manter a relevância do Globoplay frente a gigantes internacionais. Existe um orçamento aprovado para produções originais de streaming até o fim da década, e a emissora busca franquias consolidadas que garantam retorno certo. Manuela Dias provou ser capaz de entregar exatamente isso: engajamento popular e qualidade técnica.
Apesar do otimismo nos bastidores, a comunicação oficial da Globo adota cautela. Procurada, a emissora afirmou que “não há uma previsão para uma terceira temporada de Justiça por enquanto”. Essa resposta padrão serve para não criar expectativas imediatas, já que o calendário de produção é complexo. Vale lembrar que a segunda temporada, prevista para ir ao ar na TV aberta ainda este ano, foi adiada para 2026, sem data definida.
Esse adiamento da exibição na TV aberta reforça a tese de que “Justiça” se tornou um produto premium, focado primeiramente na retenção de assinantes do streaming. A TV aberta, cada vez mais volátil como mostra o caso do programa de humor cancelado, serve agora como uma segunda janela, menos prioritária para esse tipo de conteúdo denso e serializado.
O Legado de Manuela Dias e o Elenco Estelar
A franquia “Justiça” foi o divisor de águas na carreira de Manuela Dias, projetando-a ao alto escalão da dramaturgia global. A estrutura narrativa inovadora, que entrelaça histórias de crimes e vinganças em dias diferentes da semana, renovou a linguagem das minisséries brasileiras. O elenco sempre foi um ponto forte: a primeira fase contou com Adriana Esteves e Cauã Reymond, entregando atuações viscerais.
Já a segunda temporada manteve o nível elevado, trazendo nomes como Juan Paiva, Paolla Oliveira, Nanda Costa, Alice Wegmann e Murilo Benício. A capacidade da autora de atrair grandes estrelas para papéis complexos e moralmente ambíguos é um dos trunfos para a aprovação de uma terceira leva. Atores disputam papéis em obras de Manuela Dias, sabendo da repercussão crítica que elas geram.
No fim das contas, as duas notícias desta terça-feira desenham o mapa atual da Globo: uma impaciência crescente com formatos de entretenimento que não performam imediatamente na TV aberta, contrastada com um investimento pesado e de longo prazo em dramaturgia de elite para o streaming. O “facão” no humor e o sinal verde para o drama mostram onde a emissora enxerga seu verdadeiro futuro.








