A expectativa para o lançamento do SBT News, o novo canal de notícias da emissora da família Abravanel, era de que o projeto trouxesse uma alternativa robusta ao “Hard News” dominado pela GloboNews e CNN Brasil. Com estreia marcada para o dia 15 de dezembro, a grade de programação começa a ser revelada e traz surpresas que podem confundir o telespectador. Em vez de uma cobertura jornalística ininterrupta ou documentários aprofundados, o canal apostará em uma mistura perigosa de entretenimento, fofocas e nostalgia, replicando um modelo de negócios questionável já utilizado pela concorrência.
A grande novidade, que pegou o mercado de surpresa, é a inclusão de conteúdos de fofoca na grade de um canal teoricamente dedicado à informação séria. O polêmico “Fofocalizando”, criado por Silvio Santos e conhecido por suas pautas sobre celebridades e subcelebridades, terá espaço garantido na nova empreitada. A atração ganhará um compilado de “Melhores Momentos” para preencher a grade dos fins de semana. Segundo informações divulgadas pelo influenciador Brenno de Moura e adiantadas pelo portal TV Pop, os repetecos entrarão no ar aos sábados, às 15h, e aos domingos, às 14h.
Table of Contents
A “Record-News-ização” do SBT News
Ao observar a montagem dessa grade, torna-se impossível não traçar um paralelo direto com a estratégia adotada pela Record News. O canal de notícias da Barra Funda, embora tenha momentos de jornalismo ao vivo, frequentemente preenche seus horários ociosos, especialmente nos fins de semana, com reprises de programas de variedade da TV aberta, como o “Domingo Espetacular” ou conteúdos de entretenimento leve. O SBT parece ter decidido seguir exatamente esse caminho, o que levanta um debate sério sobre a identidade do novo projeto.
Essa estratégia, embora economicamente viável por reduzir custos de produção ao vivo, acaba por enfraquecer a marca “SBT News” antes mesmo de ela se consolidar. Quando um telespectador sintoniza em um canal de notícias, a expectativa é encontrar informação em tempo real, análises geopolíticas ou econômicas. Encontrar reprises de fofocas ou programas de auditório dilui a autoridade jornalística do canal, transformando-o em uma espécie de “SBT 2” ou um depósito de reprises, em vez de um competidor de peso no segmento de notícias 24 horas.
Nostalgia como muleta: Jô Soares e Gabi
Além das fofocas, o SBT News apelará fortemente para o acervo histórico da emissora, transformando o canal em um canal de memória nos fins de semana. Foi confirmado que o clássico “Jô Soares Onze e Meia”, talk show que marcou época entre 1988 e 1999, terá suas entrevistas reprisadas. A exibição ocorrerá aos sábados, às 17h30, e aos domingos, às 07h, com edições compactas de 30 minutos. Embora seja um conteúdo de altíssima qualidade cultural, sua presença em um canal de news soa deslocada.
O mesmo vale para o “De Frente com Gabi”. As entrevistas conduzidas por Marília Gabriela, exibidas originalmente entre 1998 e 2015, também foram escaladas para compor a grade, com exibição prevista para às 19h. Novamente, a emissora aposta na força dos nomes consagrados para segurar a audiência, mas foge do propósito de um canal de notícias, que deveria priorizar o factual. Essas atrações funcionariam melhor em um canal de variedades ou no próprio streaming (+SBT), não em uma grade que promete competir com a agilidade da CNN ou da BandNews.
A noite vira entretenimento e reprise do aberto
A faixa noturna e a madrugada do SBT News também seguirão o padrão de reaproveitamento de conteúdo da TV aberta. O “SBT Brasil”, principal telejornal da casa comandado por Cesar Filho, terá uma reprise diária às 23h. Essa é uma prática comum até mesmo na GloboNews, que reapresenta jornais da TV Globo, e serve para capturar o público que perdeu a edição ao vivo. No entanto, a sequência da programação volta a flertar com o entretenimento puro, descaracterizando o viés noticioso.
O talk show “The Noite”, comandado por Danilo Gentili, terá reprises garantidas aos fins de semana: sábados à 00h30 e domingos às 23h30. Além dele, o “Podnight”, faixa que exibe podcasts de terceiros, também terá suas edições transmitidas no canal de notícias, embora os horários específicos ainda não tenham sido revelados. Isso transforma a madrugada do canal em uma extensão da linha de shows do SBT convencional, sem oferecer uma alternativa de cobertura para quem busca notícias durante a noite.
O risco de nascer velho e sem foco
A decisão de lotear a programação com produtos de arquivo e entretenimento aponta para uma falta de investimento — ou de coragem — para bancar uma operação de jornalismo “Hard News” 24 horas. Manter uma equipe ao vivo nos fins de semana é caro e trabalhoso, e o SBT parece ter optado pelo caminho mais curto. No entanto, o preço a ser pago pode ser a irrelevância editorial. Se o público perceber que o canal é apenas um “replay” da TV aberta com um nome diferente, a fidelização será difícil.
Para um projeto que anunciou contratações de peso e prometeu tecnologia e inovação, a grade revelada até agora soa contraditória. O SBT News corre o risco de nascer com uma crise de identidade, tentando agradar a todos — os fãs de fofoca, os nostálgicos do Jô e os insones do The Noite — mas falhando em entregar o produto principal que carrega em seu nome: a notícia quente, exclusiva e ao vivo. Resta saber se a audiência comprará essa mistura ou se o canal será apenas mais um número no controle remoto, lembrado apenas quando a TV aberta estiver nos comerciais.







