A TV Globo enfrenta um momento delicado em sua grade vespertina com a reexibição de um dos maiores clássicos de sua teledramaturgia. A reprise de “Rainha da Sucata” (1990), que estreou há apenas três semanas no tradicional “Vale a Pena Ver de Novo”, acendeu um alerta vermelho nos bastidores da emissora carioca. A trama, escrita por Silvio de Abreu e protagonizada por Regina Duarte, não tem correspondido às expectativas da direção e vem derrubando vertiginosamente os índices de audiência na Grande São Paulo.
O desempenho abaixo do esperado tem gerado preocupação não apenas pelo fracasso isolado da novela, mas pelo efeito cascata que está causando na programação noturna. A queda nos números reflete uma rejeição inicial do público atual à obra que foi um fenômeno no início dos anos 90, obrigando a emissora a repensar estratégias de edição e divulgação para tentar estancar a sangria de telespectadores em um horário estratégico para o mercado publicitário.
Além dos problemas técnicos e numéricos, a situação ganhou contornos de polêmica nas redes sociais. A notícia sobre o baixo desempenho da novela serviu de munição para antigas rivalidades políticas e artísticas, trazendo à tona mais um capítulo do embate entre o ator José de Abreu e a protagonista da trama, Regina Duarte, evidenciando que a crise da novela ultrapassa a barreira da televisão e atinge o debate público.
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Números Alarmantes: A Pior Estreia em Anos
Os dados consolidados do Kantar Ibope Media revelam um cenário desanimador para a Globo. Com 16 capítulos exibidos até o momento, “Rainha da Sucata” amarga uma média de apenas 13,5 pontos. Para se ter uma ideia da gravidade da queda, esse número representa uma retração de 20,5% em comparação com a antecessora na faixa, a reexibição de “A Viagem” (1994), que mantinha uma média confortável de 17 pontos e segurava o público em frente à TV.
Este é, estatisticamente, o pior início de uma reprise no “Vale a Pena Ver de Novo” desde a reexibição de “Paraíso Tropical” (2007), que foi ao ar em 2023 e também enfrentou dificuldades para engrenar. A direção da emissora contava com o carisma da personagem Maria do Carmo e a nostalgia dos anos 90 para manter os índices elevados, mas a estratégia parece ter falhado na conexão com o telespectador contemporâneo do horário vespertino.
A comparação com “A Viagem” torna o cenário ainda mais dramático, pois a trama espírita de Ivani Ribeiro costuma ser um “coringa” de audiência, elevando o patamar da faixa. A brusca descida de 17 para 13,5 pontos em tão pouco tempo indica que o público mudou de canal ou desligou a televisão assim que a nova atração começou, rejeitando a proposta narrativa ou o tom da novela de Silvio de Abreu logo nas primeiras semanas.
O Efeito Dominó em “Êta Mundo Melhor”
O problema de audiência de “Rainha da Sucata” não se restringe ao seu horário de exibição; ele criou um “efeito dominó” prejudicial para a novela das seis, “Êta Mundo Melhor”. Na televisão, existe o conceito de “sala de espera” ou “alavancagem”, onde um programa de sucesso entrega a audiência alta para o seguinte. Com a entrega em baixa, o folhetim de Walcyr Carrasco está sofrendo para recuperar o público perdido.
Antes da troca de reprises, “Êta Mundo Melhor” navegava em águas tranquilas, marcando índices na casa dos 20 pontos, um sucesso estrondoso para o horário das 18h. No entanto, na semana passada, impactada pelo fraco desempenho de sua antecessora, a novela caiu para uma média de 17 pontos. Essa perda de 3 pontos é significativa e acende o sinal de alerta para o restante da grade noturna, incluindo o telejornal local e a novela das sete.
A Globo sabe que recuperar essa audiência perdida no meio da tarde é uma tarefa árdua. Quando o público desliga a televisão ou muda de canal durante o “Vale a Pena Ver de Novo”, é muito mais difícil trazê-lo de volta para o início da novela das seis. Isso coloca uma pressão extra sobre a equipe de programação, que precisa agir rápido para que a crise vespertina não contamine o “Jornal Nacional” e a novela das nove.
José de Abreu Provoca e Ironiza Regina Duarte
A crise de audiência da novela não passou despercebida pela classe artística, e o ator José de Abreu utilizou a situação para alfinetar sua antiga colega de emissora e desafeta política, Regina Duarte. Em uma postagem no Instagram que repercutia os baixos índices da trama, o veterano não perdeu a oportunidade de ironizar a situação, sugerindo que a presença da atriz seria o motivo da rejeição.
“Regina Duarte derruba qualquer audiência”, escreveu José de Abreu nos comentários, em tom provocativo. A frase curta, mas direta, insinua que a imagem pública da atriz, desgastada por suas posições políticas e sua passagem pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, estaria afugentando os telespectadores, independentemente da qualidade da obra exibida. Até o momento, Regina Duarte não respondeu à provocação do ator.
O histórico de conflitos entre os dois é longo e público. José de Abreu, conhecido por seu posicionamento de esquerda, frequentemente critica Regina por seu apoio irrestrito a Bolsonaro e por sua breve e conturbada gestão na Secretaria Especial de Cultura em 2020. Para o ator, o fracasso da reprise parece servir como uma validação de que o público compartilha de sua rejeição à figura política que a atriz se tornou nos últimos anos.
Operação de Resgate: Cortes e Marketing
Diante do cenário crítico, a Globo montou uma “operação de guerra” para tentar salvar a audiência de “Rainha da Sucata”. A primeira medida será reforçar massivamente a divulgação da novela em outros programas da casa. A emissora planeja convidar nomes do elenco original para participarem de atrações de entretenimento, como o “Encontro com Patrícia Poeta”, na tentativa de reavivar a memória afetiva do público e gerar interesse pela trama.
Além do marketing, a ilha de edição trabalhará a todo vapor. A emissora fará ajustes significativos na montagem dos capítulos, acelerando o ritmo da narrativa. O objetivo é chegar mais rapidamente à fase em que a novela deixa de lado o foco excessivo no humor — que pode estar soando datado para o público atual — e aposta em um melodrama rasgado, gênero que historicamente segura mais a audiência vespertina.
Originalmente, o planejamento da Globo previa que “Rainha da Sucata”, com seus 179 capítulos, ficasse no ar até depois do Carnaval, em março de 2026. No entanto, a possibilidade de a novela ser encurtada drasticamente já está na mesa da direção. Se os ajustes na edição e a campanha de divulgação não surtirem efeito nas próximas semanas e os índices continuarem estagnados ou caindo, a “tesoura” será inevitável para dar lugar a uma trama com maior apelo popular.









