O cenário televisivo para o ano de 2026 começa a ser desenhado com movimentações bruscas nos bastidores, e a Band parece ser a emissora mais afetada pelas mudanças de mercado até o momento. A direção do canal, que buscava consolidar sua grade esportiva e reviver clássicos do humor, sofreu dois reveses significativos que alteram profundamente o planejamento para o próximo ano. De um lado, a perda dos direitos de transmissão de um dos estaduais mais importantes do país; do outro, a frustração de não conseguir viabilizar comercialmente o retorno de um fenômeno de audiência do passado.
A Band deixará oficialmente de transmitir o Campeonato Carioca em 2026, encerrando um ciclo de três anos de exibição que marcou a tentativa da emissora de rivalizar com a Globo no início da temporada esportiva. A decisão não foi tomada de ânimo leve, mas foi impulsionada por uma realidade financeira dura: a falta de retorno publicitário satisfatório na edição de 2025 pesou na balança. O modelo de negócio vigente, onde a emissora não pagava pelos direitos mas dividia os lucros comerciais com a Brax — empresa detentora dos direitos da Ferj —, provou-se insuficiente para sustentar a operação na grade nacional.
Enquanto a Band recua, a TV Globo avança com apetite voraz para retomar o monopólio das transmissões. A emissora da família Marinho, que já havia retomado parcialmente o torneio no ano passado, agora negocia um contrato de exclusividade total com a Brax. Diferente da concorrente, a Globo desembolsa um valor fixo pelos direitos, garantindo segurança financeira para a Federação e para os clubes, além de já possuir acordos de patrocínio engatilhados, inclusive com uma casa de apostas que patrocinou o evento em 2025.
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O Fracasso do Projeto CQC: O Mercado Diz “Não”
Se no esporte a situação é de retirada, no entretenimento o cenário é de rejeição. A Band vinha trabalhando nos bastidores com a ambiciosa ideia de trazer o “CQC” (Custe o Que Custar) de volta à sua programação. O programa, que revolucionou o humor e o jornalismo na década de 2000, era visto como uma potencial alavanca de audiência e repercussão para a grade de 2026. No entanto, as sondagens feitas pela emissora encontraram uma barreira intransponível: o mercado publicitário.
A recepção das agências e anunciantes à ideia do retorno do humorístico não foi das melhores, jogando um balde de água fria nas pretensões do canal. Executivos do setor foram categóricos ao alertar a emissora de que seria impossível produzir o CQC hoje nos mesmos moldes em que ele foi consagrado originalmente. O clima político polarizado e as mudanças no que é considerado aceitável no humor tornaram o formato original, baseado em confrontos e ironia ácida, um produto de alto risco para as marcas.
Além da barreira comercial, a Band enfrentou a recusa do capital humano que fez a história da atração. Os integrantes originais da bancada e da reportagem, que seguiram carreiras solo de sucesso ou mudaram de perfil profissional, não demonstraram simpatia com a ideia de retomar seus antigos postos. Sem o apoio financeiro das marcas e sem o elenco que garantiu a identidade do programa, o projeto de revival do CQC parece ter sido arquivado antes mesmo de sair do papel.
Globo Blinda o Cariocão: Estratégia Multiplataforma
Com o caminho livre deixado pela Band, a Globo desenhou uma estratégia de guerra para o Campeonato Carioca de 2026. A empresa planeja uma cobertura onipresente, exibindo o torneio na TV aberta, no canal esportivo SporTV e no Premiere, seu serviço de pay-per-view. O objetivo é claro: utilizar a força dos clubes do Rio de Janeiro para alavancar assinaturas, reservando algumas partidas exclusivas para o sistema pago e forçando o torcedor a migrar para o streaming ou cabo.
A experiência de 2025, onde Globo e Band dividiram as transmissões, serviu como um laboratório que, paradoxalmente, fortaleceu a Globo. Na ocasião, as emissoras não exibiam as mesmas partidas na primeira fase, o que ajudou na audiência de ambas. A Globo focou no Rio de Janeiro e em praças do Norte e Nordeste, enquanto a Band conseguiu levar o sinal para todo o país, inclusive São Paulo, atingindo picos de 5 pontos com jogos do Flamengo. Agora, a Globo quer essa audiência nacional de volta para si.
O Novo Calendário e o Formato Enxuto de 2026
Além da mudança de casa, o Campeonato Carioca sofrerá alterações drásticas em sua estrutura devido ao novo calendário do futebol brasileiro. Com o Brasileirão começando mais cedo, em janeiro, o estadual terá que se espremer em apenas dez datas disponíveis em 2026. Essa compressão forçou a Federação a criar um formato de tiro curto, que promete aumentar a emoção, mas diminui o tempo de exposição das marcas.
O torneio terá início no dia 14 de janeiro e contará com um regulamento simplificado. Os 12 clubes participantes serão divididos em dois grupos, cada um contendo dois grandes (Flamengo, Fluminense, Vasco ou Botafogo) e quatro times de menor investimento. A fase de grupos será rápida, classificando os oito melhores para as quartas de final, que serão decididas em partida única. Apenas as semifinais terão jogos de ida e volta, culminando na grande decisão no Maracanã.
O Fim de Uma Era para a Band
A saída do Carioca representa um golpe na estratégia da Band de se posicionar como o “canal do esporte”. A emissora havia conseguido penetrar em mercados que jamais havia explorado anteriormente graças à transmissão nacional dos jogos do Rio. Perder esse ativo, somado à impossibilidade de reviver o CQC, coloca a direção do canal em uma posição delicada, exigindo criatividade para preencher a grade e atrair faturamento em um ano que promete ser desafiador para a televisão aberta.
Resta saber qual será a resposta da emissora para tapar esses buracos na programação. Sem o futebol carioca em janeiro e sem o humor ácido do CQC para movimentar as noites, a Band precisará buscar novos produtos ou arriscar em formatos inéditos para não perder a relevância conquistada nos últimos anos. Enquanto isso, a Globo segue consolidando seu poderio, recuperando direitos e centralizando as atenções do público esportivo.







