Se alguém dissesse, no início de 2025, que o Big Brother Brasil (BBB) terminaria o ano sendo considerado um produto irrelevante diante de seu concorrente rural, seria chamado de louco. No entanto, o encerramento do ciclo de realities deste ano desenhou exatamente este cenário improvável. “A Fazenda 17” não apenas venceu; ela massacrou o “BBB 25” em todos os critérios que importam para a indústria do entretenimento moderno: engajamento, repercussão cultural e, surpreendentemente, até na disputa direta pelo controle do controle remoto em momentos chave. O que se viu foi uma inversão total de valores, onde o “primo pobre” dos realities ensinou ao “gigante rico” como se faz televisão de verdade.
A derrocada do “BBB 25” é um estudo de caso sobre como destruir uma marca consolidada. A edição tinha a missão de ser uma grande festa: celebrava as bodas de prata do formato (25 temporadas) e integrava as comemorações dos 60 anos da TV Globo. Contudo, a ausência de J. B. Oliveira, o Boninho, sentida pela primeira vez de forma definitiva, pesou toneladas sobre a produção.
Sob a batuta de Rodrigo Dourado, o programa perdeu sua identidade manipuladora — no bom sentido do entretenimento — e se transformou em uma colônia de férias apática. A tentativa de replicar fórmulas antigas sem a “mão de ferro” da direção anterior resultou em um produto frouxo, sem direção e completamente desconectado do desejo do público por conflito e verdade.
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O Fracasso dos Números: Uma Queda Livre Sem Paraquedas
Para entender o tamanho do buraco em que a Globo se meteu, basta olhar para os números frios, que não mentem e nem aceitam desculpas. A média de audiência na Grande São Paulo estacionou em míseros 16,1 pontos. Para se ter uma ideia da gravidade, isso representa uma fuga de 20% do público em apenas um ano. Se compararmos com o fenômeno que foi o “BBB 21”, a catástrofe é ainda maior: uma retração de 41%. O programa, que antes parava o Brasil e ditava as conversas do dia seguinte em qualquer escritório ou ponto de ônibus, tornou-se um ruído de fundo que a maioria das pessoas optou por ignorar.
Mas o dado que mais assusta os executivos da Vênus Platinada vem do digital. O “BBB” sempre foi uma máquina de triturar recordes de votação, com paredões que ultrapassavam a casa do bilhão de votos e mobilizavam o país inteiro. Em 2025, o “auge” do engajamento foi um paredão que suou para atingir 209 milhões de votos. É um número que, em anos anteriores, seria considerado um fracasso para uma terça-feira qualquer, mas que neste ano foi o teto máximo. Vilões que a produção tentou vender, como Camilla Maia, saíram pela porta dos fundos com votações inexpressivas, provando que o público não comprou nem os heróis, nem os antagonistas fabricados pela edição.
A Fórmula do Caos: Como a Record Resgatou a Essência do Reality
Enquanto a Globo tentava, sem sucesso, forçar dinâmicas com um Big Fone punitivo e manipulações forçadas que o elenco ignorava, a Record acertou a mão ao apostar naquilo que é a alma do formato: o caos humano incontrolável. “A Fazenda 17” resgatou a atmosfera bélica e imprevisível que consagrou a sexta edição do programa, em 2013, até hoje lembrada como a melhor da história. O elenco selecionado para o confinamento rural não estava lá para ganhar seguidores ou fazer “VTs” bonitos para o Instagram; estava lá para viver o jogo com uma intensidade que beirava a loucura. E foi exatamente essa entrega visceral que o público comprou.
A temporada de 2025 em Itapecerica da Serra foi marcada por uma sucessão de eventos que prenderam o telespectador na frente da tela. Teve de tudo: recorde de expulsões que desfalcaram o elenco, agressões físicas transmitidas ao vivo durante formações de roça tensas, copo voando em festas e até tapas desferidos como forma de protesto. Longe de ser um exemplo de civilidade, o programa foi um exemplo de televisão crua e sem filtros. Essa “sujeira” narrativa, em contraste com a “limpeza” asséptica e entediante do BBB, fez com que a Record dominasse a narrativa cultural. Nas redes sociais, só se falava em feno e fogo, enquanto a casa do Projac caía no esquecimento.
A Virada na Audiência e o Legado de 2025
O impacto dessa temporada histórica não ficou restrito aos Trending Topics. A força de “A Fazenda 17” transbordou para o Ibope de maneira contundente. Durante a formação da terceira roça, o programa não apenas bateu seus próprios recordes, alcançando picos de 7,2 pontos, como também impôs uma derrota humilhante à Globo, liderando a audiência por 14 minutos consecutivos. Para um reality show que já está no ar há tanto tempo, conseguir superar seu melhor desempenho três vezes em uma única semana é um feito de vitalidade impressionante.
A Record navegou tranquila na vice-liderança, muitas vezes incomodando a líder, provando que o público brasileiro não é fiel a logotipos, mas sim a conteúdo de qualidade. O ano de 2025 encerra-se com uma lição clara: o telespectador cansou de personagens plásticos e dinâmicas artificiais. Ao entregar espontaneidade, barulho e um elenco disposto a tudo, “A Fazenda” não apenas venceu a batalha do ano; ela expôs a fragilidade do modelo atual do seu concorrente. Enquanto a campeã do BBB 25 já foi esquecida pela memória coletiva, as tretas de “A Fazenda 17” continuarão repercutindo, consolidando a vitória do reality que teve a coragem de ser verdadeiramente real.







