A Globo vive um momento de tensão e expectativa que pode culminar em um marco histórico e simbólico jamais visto nas últimas cinco décadas. De acordo com dados recentes da Kantar Ibope Media, apurados e divulgados pela coluna Canal D, a emissora corre um risco real e iminente de perder a liderança de audiência na média mensal de dezembro de 2025. O fato, que parecia impossível até poucos anos atrás, desenha-se como uma “tempestade perfeita” no encerramento do ano, colocando em xeque um reinado absoluto que a emissora carioca mantém desde o ano de 1969.
Essa possível derrota não representa apenas uma oscilação nos números de um mês atípico, mas sim a consolidação de uma mudança profunda e irreversível nos hábitos de consumo do brasileiro. O que torna este cenário ainda mais emblemático é a ironia temporal: a perda da coroa aconteceria exatamente no apagar das luzes do ano em que a Globo comemorou seus 60 anos de existência. Destas seis décadas, 5 foram vividas na mais absoluta liderança, moldando a cultura, a política e o comportamento da sociedade. Perder o posto número um justamente agora seria um golpe amargo nas festividades do canal.
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O Novo Rival: Streaming e a Mudança de Paradigma
O aspecto mais surpreendente dessa reviravolta nos números não é o crescimento das emissoras rivais tradicionais, mas sim a ascensão de um concorrente “invisível” e fragmentado. A ameaça à liderança da Globo não vem da Record, que se consolidou na vice-liderança, nem do SBT, que luta para manter seu público. O grande adversário que pode desbancar a gigante carioca é a soma das plataformas de streaming e conteúdo on demand (como YouTube, Netflix, Prime Video, Disney+, entre outros). É a vitória do conteúdo personalizado sobre a grade linear.
Segundo a apuração de Gabriel de Oliveira, o consumo dessas plataformas disparou de tal forma em dezembro de 2025 que a audiência acumulada delas está tecnicamente empatada ou levemente superior à da Globo em diversas faixas horárias. Isso reflete uma transformação geracional e tecnológica: o telespectador não quer mais ficar refém de horários fixos para assistir ao seu programa favorito. A liberdade de escolher o que assistir, quando assistir e em qual dispositivo (seja na TV conectada, no tablet ou no celular) está drenando a audiência da TV aberta de maneira acelerada.
Dezembro, tradicionalmente, já é um mês difícil para a televisão aberta. Com as festas de fim de ano, férias escolares e viagens, a rotina das famílias brasileiras se altera, e a fidelidade às novelas e telejornais diminui. No entanto, em 2025, esse movimento foi potencializado pela oferta robusta de conteúdo no streaming. Enquanto a TV aberta exibe reprises, especiais de fim de ano repetitivos e uma grade de “tapa-buraco”, as plataformas digitais lançam grandes produções, filmes inéditos e séries maratonáveis que capturam a atenção de quem está em casa de folga.
A Simbologia da Derrota nos 60 Anos
Ainda que a derrota não possa ser oficializada antes do fechamento total dos dados no dia 31 de dezembro, a simples possibilidade matemática de isso acontecer já gerou um terremoto nos bastidores da mídia. Para a Globo, perder a liderança na média-dia (das 7h à meia-noite) ou na média 24 horas seria um abalo institucional sem precedentes. A emissora construiu sua marca baseada na ideia de ser “a televisão do Brasil”, o ponto de encontro de toda a nação. Ser superada, mesmo que por um décimo, quebraria a mística de invencibilidade que sustenta suas negociações publicitárias bilionárias.
O ano de 2025 foi planejado para ser uma celebração apoteótica dos 60 anos do canal, com remakes de novelas clássicas, documentários e festas. Terminar este ciclo com a manchete “Globo perde a liderança” seria um anticlímax devastador. Isso forçaria a alta cúpula da emissora a repensar não apenas sua grade de programação, mas todo o seu modelo de negócio para 2026. A estratégia de tentar trazer o público jovem de volta para a TV aberta parece não estar surtindo o efeito desejado contra a força bruta dos algoritmos das plataformas digitais.
Além disso, é preciso considerar o impacto psicológico no mercado. Se a “Vênus Platinada” sangra, isso sinaliza para os anunciantes que a atenção do consumidor está, de fato, migrando. O dinheiro da publicidade tende a seguir a audiência, e uma vitória do streaming nos dados consolidados da Kantar Ibope serviria como o argumento final para muitas marcas redistribuírem suas verbas de marketing, tirando ainda mais recursos da TV linear e injetando no digital, criando um ciclo vicioso difícil de reverter para as emissoras tradicionais.
O Futuro da TV Aberta: Resistência ou Adaptação?
É importante ressaltar que a Globo não está parada assistindo a esse movimento. A emissora tem investido pesadamente no Globoplay, sua própria plataforma de streaming, tentando converter o telespectador da TV aberta em assinante digital. No entanto, na métrica de audiência da TV linear, o Globoplay conta como “streaming”, ou seja, ironicamente, o sucesso do produto digital da própria Globo ajuda a derrubar a audiência do canal aberto na medição comparativa. É o paradoxo da modernização: para sobreviver no futuro, a empresa precisa canibalizar o seu presente.
A apuração da coluna Canal D joga luz sobre a urgência de uma reinvenção. Se em dezembro de 2025 a liderança está por um fio, o que acontecerá em 2026 e nos anos seguintes? A tendência é que a distância entre a TV aberta e o streaming diminua cada vez mais, até que o digital assuma a ponta de forma definitiva e constante, não apenas em meses atípicos. A TV Globo continuará sendo uma gigante produtora de conteúdo, talvez a maior do país, mas seu papel como “dona” do controle remoto dos brasileiros está, indiscutivelmente, chegando ao fim.
Portanto, estamos diante de um momento histórico. A hegemonia que começou em 1969, atravessou a ditadura militar, a redemocratização, diversos planos econômicos e a revolução da internet, pode encontrar seu primeiro revés significativo agora. Seja qual for o resultado final dos números em 31 de dezembro, o aviso foi dado: o império da televisão linear não é mais inabalável, e a coroa da audiência, que parecia soldada na cabeça da Globo, nunca esteve tão perto de trocar de mãos.







