Quem observa o cenário da TV brasileira neste início de 2026 percebe uma transformação irreversível. É interessante — e ao mesmo tempo assustador para os executivos tradicionais — verificar como a pulverização do conteúdo alterou drasticamente o mapa da audiência. A TV aberta, que reinou soberana por décadas como a única fogueira ao redor da qual a família se reunia, hoje divide a atenção com uma infinidade de telas e plataformas.
Com tantas opções espalhadas pelo ecossistema digital, como o crescimento exponencial das redes sociais, a consolidação definitiva do streaming e a força inabalável do YouTube, a única certeza que resta aos analistas de mídia é que “nada mais será como antes”. O comportamento do consumidor mudou a biologia do mercado, e quem não entender que o sofá agora compete com o smartphone, ficará falando sozinho.
Para ilustrar o tamanho desse abismo, basta olhar para o retrovisor. Vamos pegar como exemplo o fenômeno “Os Dez Mandamentos”, exibida originalmente pela Record entre 23 de março de 2015 e 4 de julho de 2016. Naquele período, a abertura do Mar Vermelho parou o Brasil, garantindo uma média consolidada de 28 pontos em São Paulo e incríveis 32 pontos no Rio de Janeiro, números hoje inimagináveis fora da Globo.
Atualmente, a realidade é um banho de água fria. As séries bíblicas e as superproduções turcas, exibidas na mesma Record e com alto investimento, penam para atingir 5 ou 6 pontos de média. O público simplesmente não está mais lá da mesma forma. E esse não é um privilégio negativo da concorrente; a líder também sangra. A realidade da dramaturgia da TV Globo mudou drasticamente.
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A Nova Métrica do Ibope e o “Celular na Mão”
Embora a Globo siga líder — e muito líder, diga-se de passagem — as médias de 30 ou 40 pontos, que antes eram o “piso” para considerar uma novela das nove um sucesso, tornaram-se eventos raros. O fato inegável é que o público não está mais concentrado em um ou dois canais, mas espalhado pelas tantas mídias de agora, fragmentando o share (participação de televisores ligados).
No horário nobre da novela, basta reparar ao redor: quantos telespectadores não estão com a TV ligada apenas como pano de fundo, enquanto estão grudados no celular, rolando o feed ou assistindo a vídeos no YouTube? A “segunda tela” virou a primeira tela para muita gente, e a TV aberta precisa lutar contra a notificação do WhatsApp e o algoritmo do TikTok.
Além da mudança comportamental, houve uma mudança técnica crucial. Em 2026, o Ibope alterou o tamanho da amostragem e a valoração dos pontos. Houve um aumento no número de indivíduos que equivalem a 1 ponto de audiência. Na prática, isso pulveriza ainda mais o mercado: é preciso muito mais gente assistindo para marcar o mesmo ponto de antes, o que achata as curvas de audiência para baixo.
Neste cenário de “cada ponto vale ouro”, resta saber como ficará a sustentabilidade financeira da televisão aberta. Os reflexos de orçamentos mais enxutos já estão visíveis nas produções. É preciso cuidar desse veículo que ainda é o de maior alcance de massas no Brasil, mas também é urgente ampliar drasticamente os limites das pesquisas para contabilizar quem assiste ao conteúdo fora da TV convencional.
Microdramas e a Terceirização: O Novo Eldorado
Não à toa, existe uma corrida desesperada das grandes emissoras para dominar também o digital, especialmente o conteúdo vertical. O que chama a atenção na estratégia recente do Globoplay é a aposta nos microdramas, novelas curtas feitas para serem consumidas em celulares. E uma curiosidade de bastidores revela muito sobre os novos tempos: os estúdios da Globo (antigo Projac) quase não são utilizados para essas produções.
A emissora tem optado por encomendar esses produtos fora. A produtora Formata, por exemplo, tornou-se uma das parceiras mais procuradas para essas realizações. Essa terceirização é um sinal dos novos tempos: reduz custos fixos, agiliza a produção e traz uma linguagem estética diferente, mais ágil e próxima do que o jovem consome na internet.
Essas novas plataformas dedicadas às novelas verticais passaram a prestar um serviço dos mais relevantes para a classe artística. Além de ser um novo campo de trabalho financeiro em tempos de contratos por obra, os microdramas tornaram-se o local propício para o lançamento de muitos jovens talentos e para a “rodagem” de outros que precisam limpar a imagem ou ganhar experiência.
Um exemplo claro dessa evolução é Jade Picon. Criticada exaustivamente por sua atuação em “Travessia” na sua estreia em 2023, a influenciadora e atriz surge completamente transformada no microdrama “Tudo por Uma Segunda Chance”, disponibilizado recentemente. Quem assistiu, observou um amadurecimento dos mais importantes em sua técnica, provando que o formato menor pode ser uma excelente escola.
O Futuro das Novelas: Walcyr Carrasco, Letícia Colin e o Desafio de Tatá Werneck
Ainda no campo das novidades do elenco, os microdramas e as produções paralelas continuam aquecidos. A atriz Vitória Strada, por exemplo, prepara seu retorno às novelas na primeira produção da Tele Tele, mais uma plataforma que investe no gênero. Mas é na TV aberta, na faixa mais nobre, que as maiores expectativas se concentram para a substituta de “Três Graças”.
A próxima novela de Walcyr Carrasco já começa a ganhar contornos definidos e promete chacoalhar o público. A talentosa Letícia Colin foi a escolhida para ser a grande mocinha da história, carregando o peso dramático que o autor costuma exigir de suas protagonistas. Colin, conhecida por sua versatilidade, terá a missão de segurar a audiência em tempos difíceis.
Porém, a grande bomba do elenco fica por conta da antagonista. Desta vez, Walcyr decidiu poupar Agatha Moreira. Tudo indica que não veremos a atriz repetindo o papel de vilã, evitando o desgaste de imagem. Toda essa parte maléfica, segundo se informa nos bastidores, será destinada a uma escolha ousada e surpreendente: a personagem de Tatá Werneck.
Vai ser complicado e fascinante para o público enxergar em Tatá, eternamente associada ao humor rápido e à comédia escrachada, uma pessoa do mal, capaz de atrocidades em uma novela das nove. É meio que um desafio pessoal para a atriz e uma aposta de risco do autor. Se funcionar, pode ser a consagração definitiva de Werneck como atriz dramática; se não, será um dos assuntos mais comentados de 2026.







