A batalha pelo terceiro lugar no ranking de audiência da TV aberta brasileira, que parecia ser o grande objetivo estratégico da Band para os próximos meses, encontrou barreiras muito mais complexas do que apenas a grade da concorrência. Embora a reformulação interna liderada por novos executivos tenha propósitos bem definidos, a realidade comercial impôs um freio brusco nas pretensões da emissora do Morumbi. O otimismo inicial de encurtar a distância para o SBT agora enfrenta o ceticismo do mercado e a falta de viabilidade financeira de seus novos projetos.
Sabe-se que, entre as paredes da emissora, a reformulação colocada em prática tinha como alvo principal aproveitar o momento de fragilidade do SBT. A chegada de Guillermo Pendino para o Artístico e a dedicação integral de Rodolfo Schneider ao jornalismo foram os primeiros passos de uma organização interna que visava um rápido reposicionamento. No entanto, o planejamento estratégico esbarrou em um fator externo implacável: o dinheiro dos anunciantes está curto para novidades incertas, especialmente em um ano atípico para o calendário esportivo e econômico.
As ideias de programação para 2026 na Band correm o sério risco de não sair do papel, transformando o “ano da virada” em um ano de estagnação forçada. A diretoria da emissora não consegue convencer o mercado publicitário da viabilidade comercial de alguns de seus principais projetos. As agências e grandes marcas, que são o motor de qualquer TV comercial, mostram-se reticentes em investir em formatos que ainda não provaram seu valor ou que dependem de uma mudança de hábito do telespectador que a Band ainda não conquistou.
Esse cenário de desconfiança torna o desafio de convencer os donos da emissora ainda mais hercúleo. Se antes a missão era provar que uma grade comercial faturaria mais que o aluguel da igreja, agora o argumento perde força diante da negativa do mercado em comprar as cotas de patrocínio das novas atrações. Sem dinheiro novo entrando, a estrutura de custos da Band não suporta aventuras, obrigando a gestão a recuar para uma zona de segurança que, ironicamente, a mantém distante do tão sonhado terceiro lugar.
Table of Contents
O “Efeito Copa do Mundo” e a Retração dos Investimentos
Um dos principais vilões para os planos da Band neste ciclo é o calendário esportivo global. O mercado publicitário, motivado pela Copa do Mundo de 2026, não está tão disposto a comprar as novidades da emissora, preferindo concentrar suas verbas nos detentores oficiais dos direitos de transmissão ou em ações pontuais ligadas ao evento. Em anos de Mundial, a verba publicitária é drenada massivamente para o futebol, sobrando poucas migalhas para o entretenimento de variedades em emissoras que não são as protagonistas da cobertura.
A Band, que historicamente tem o esporte em seu DNA, sofre o paradoxo de ver o maior evento esportivo do mundo atrapalhar sua grade de entretenimento. As marcas estão guardando orçamento para o segundo semestre ou focando em campanhas institucionais ligadas à seleção brasileira, deixando de lado apostas em novos programas de auditório ou reality shows que a Band planejava lançar. A timidez dos investidores cria um ciclo vicioso: sem dinheiro, não há produção de qualidade; sem produção de qualidade, não há audiência; sem audiência, o mercado não investe.
Dessa forma, o sonho de ultrapassar o SBT fica tecnicamente inviável a curto prazo. O SBT, mesmo em crise, possui uma grade consolidada e barata, enquanto a Band precisaria de injeção de capital para alavancar seus números. Com o mercado fechando a torneira para “aventuras” em 2026, a emissora se vê obrigada a trabalhar com o que tem, o que significa manter a grade estagnada e dependente dos seus pilares tradicionais, sem o frescor necessário para atrair um novo público.
A frustração nos bastidores é palpável. O planejamento desenhado pelos executivos era robusto no papel, prevendo uma ofensiva em diversas frentes. Porém, a execução dependia de um “sim” do mercado que não veio. A realidade dura é que as agências de publicidade preferem a segurança dos números da Globo ou a previsibilidade da Record e do SBT a apostar na promessa de crescimento da Band, especialmente em um ano onde cada centavo de investimento precisa trazer retorno garantido.
O Fim do Sonho do CQC e o Horizonte de 2027
Dentro desse pacote de frustrações, uma das perdas mais simbólicas para os fãs e para a própria identidade da emissora foi o descarte de um projeto que poderia trazer barulho e repercussão. Uma das ideias que estavam na mesa era a volta do CQC (Custe o Que Custar), formato que marcou época na Band e revelou grandes talentos. O retorno do programa era visto como uma cartada de mestre para recuperar a relevância no debate público e atrair o público jovem e politizado.
No entanto, a volta do CQC já foi totalmente descartada pela emissora. A análise de viabilidade mostrou que o custo de produção, somado aos riscos jurídicos e à dificuldade de montar um elenco com a mesma química do original, não compensaria o retorno financeiro no atual cenário de retração. O cancelamento do projeto é um balde de água fria naqueles que esperavam uma Band mais ousada e agressiva em 2026. O CQC representava a audácia que a emissora precisava para chacoalhar a concorrência.
Com o engavetamento de grandes projetos e a recusa do mercado em financiar inovações agora, o cronograma da virada foi alterado. Maiores novidades provavelmente só ficarão para 2027. A diretoria já começa a trabalhar com a ideia de que 2026 será um ano de transição e sobrevivência, e não de revolução. O foco passa a ser arrumar a casa, sanear contas e preparar o terreno para, quem sabe, tentar novamente quando a poeira da Copa baixar e o mercado estiver mais aquecido.
Para este ano, no máximo, a Band fará ajustes pontuais na grade. Serão mudanças cosméticas, trocas de horários ou pequenas reformulações em programas já existentes, sem grandes estreias ou contratações bombásticas que mexam com os ponteiros do Ibope. Essa estratégia de “manutenção” é segura financeiramente, mas fatal para as pretensões de audiência. Ajustes pontuais não são suficientes para tirar a diferença de pontos que separa a Band do SBT e da Record.
A Persistência da Igreja e a Dificuldade do Terceiro Lugar
Diante da falta de verba para novos programas e do cancelamento de apostas como o CQC, o problema estrutural do horário nobre se torna ainda mais insolúvel. O que dificultará mais ainda o sonho de terceiro lugar é a permanência quase obrigatória da igreja na grade. Se a Band não consegue vender projetos novos para o mercado publicitário, ela jamais terá argumentos financeiros para dispensar o dinheiro seguro e pontual de R.R. Soares.
A igreja, que era vista como uma “pedra de tropeço” que poderia ser removida com o sucesso comercial da nova grade, agora se consolida como uma muleta indispensável. Sem a receita variável dos anúncios que não foram vendidos, a receita fixa do aluguel de horário torna-se a garantia de pagamento da folha salarial. Os executivos ficam de mãos atadas: sabem que a igreja derruba a audiência e impede o crescimento, mas não têm o cheque do mercado publicitário para cobrir o rombo que a saída religiosa deixaria.
O SBT, mesmo com seus problemas, agradece. A concorrência direta da Band, que poderia ser feroz em 2026, perde força antes mesmo de entrar em campo. A emissora de Silvio Santos continuará nadando de braçada no terceiro lugar não por méritos novos, mas pela incapacidade da Band de viabilizar seu ataque. O público, que ganharia com uma disputa acirrada por qualidade, terá que se contentar com mais do mesmo.
Em suma, 2026 desenha-se como um ano de “banho-maria” para a Band. A tempestade perfeita formada pela cautela do mercado publicitário, o foco na Copa do Mundo e a inviabilidade de projetos nostálgicos como o CQC empurrou o sonho do pódio para um futuro incerto em 2027. Resta aos executivos gerenciar a frustração e tentar, nos detalhes, manter a relevância de uma emissora que tem tudo para crescer, menos o dinheiro para fazê-lo agora.








