O mercado de streaming no Brasil atravessa um momento de transformação radical, e o Globoplay, principal plataforma nacional, encontra-se no epicentro de um terremoto estratégico. De um lado, a empresa acelera rumo ao futuro com investimentos pesados em formatos inovadores para capturar a geração do TikTok; do outro, enfrenta uma batalha jurídica sem precedentes que ameaça o seu trunfo mais valioso: o acervo de novelas clássicas.
A direção da emissora parece ter traçado uma linha clara no chão: é preciso renovar o público e, ao mesmo tempo, blindar-se de passivos trabalhistas que começam a explodir nos tribunais. A nova aposta atende pelo nome de “microdramas” ou novelas verticais, um formato ágil, barato e com alto potencial de viralização.
Enquanto isso, nos bastidores do canal “Globoplay Novelas” e do acervo on-demand, a nostalgia que sempre foi uma máquina de fazer dinheiro começa a se tornar uma dor de cabeça jurídica. Atores renomados, insatisfeitos com os pagamentos irrisórios pelas reexibições digitais, estão processando a gigante da comunicação, forçando uma mudança silenciosa, mas drástica, na programação: a substituição de clássicos antigos por tramas recentes e produções internacionais.
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A Revolução Vertical: O Novo Ouro do Streaming
A Globo percebeu que a atenção do usuário migrou. O consumo de conteúdo em smartphones, com a tela na vertical, não é mais uma tendência passageira, mas a norma para milhões de brasileiros. Para não perder esse público para plataformas como Kwai e TikTok, o Globoplay iniciou uma ofensiva poderosa no segmento de microdramas.
Não se trata apenas de testes isolados, mas de uma estratégia industrial consolidada. A parceria firmada entre o Globoplay e a produtora Formata é a prova cabal desse novo momento. As empresas já fecharam um pacote robusto com cinco trabalhos garantidos, demonstrando que o empenho da Globo nesse novo segmento é prioritário e de longo prazo.
Esse modelo de negócio, que envolve a terceirização da produção com parceiros estratégicos como a Formata, permite à Globo ganhar agilidade. Diferente das novelas tradicionais que levam meses para serem montadas, os microdramas possuem um ciclo de produção muito mais veloz, custos reduzidos e uma linguagem direta, feita sob medida para o consumo rápido em dispositivos móveis.
“Uma Babá Milionária” e o Time de Peso nos Microdramas
Para garantir que a qualidade não seja sacrificada em nome da agilidade, a Globo escalou nomes conhecidos da teledramaturgia para encabeçar esses projetos. Um dos destaques que já se encontra em fase de gravação é a obra “Uma Babá Milionária”. O texto é assinado por Gustavo Reiz, autor com experiência em novelas tradicionais, o que sinaliza a intenção de manter o DNA narrativo da Globo, mesmo em telas menores.
No papel principal dessa trama, temos Laryssa Aires, uma atriz que dialoga bem com o público jovem e com as redes sociais. A escolha do elenco e da equipe técnica não foi aleatória. A direção desses novos projetos está nas mãos de profissionais gabaritados como Marcelo Zambelli, Roberta Richard e Victor Soares, que trazem a expertise da televisão para o formato vertical.
Essa movimentação reforça que, embora o formato seja “micro”, o tratamento é “macro”. A Globo não está fazendo vídeos amadores; está produzindo teledramaturgia de alta qualidade técnica, adaptada para o formato que a audiência moderna exige. É a tentativa de levar o “Padrão Globo de Qualidade” para a palma da mão, em episódios curtos e ganchos poderosos.
“Quem É O Pai Do Meu Bebê?”: A Força do Elenco Estelar
Outro exemplo claro de que a parceria Globoplay e Formata não está para brincadeira é a produção “Quem É O Pai Do Meu Bebê?”. Escrita por Hofstetter, a trama já está em início de produção e conta com um elenco que, até pouco tempo atrás, seria impensável para produções exclusivas de internet ou formatos curtos.
A produção traz protagonistas de peso como Taumaturgo Ferreira, um veterano da TV, ao lado de nomes populares como o cantor e ator Lucas Lucco, e as atrizes Carol Castro e Bianca Comparatto. A presença de Bianca, conhecida por séries de streaming de alto nível, e Carol Castro, rosto familiar das novelas das nove, legitima o formato vertical como um novo palco para grandes atuações.
Como se observa, trata-se de um negócio extremamente bem embalado. A mistura de atores consagrados com influenciadores e roteiros dinâmicos cria amplas possibilidades de continuar mexendo com o mercado publicitário e de assinaturas. A Globo, inteligentemente, não fechou exclusividade apenas com a Formata, mantendo acordos com outras produtoras de conteúdo para garantir um fluxo constante de novidades.
O Reverso da Medalha: A Crise dos Direitos Conexos
Enquanto o futuro parece brilhante na tela vertical, o passado assombra a gestão do Globoplay. As reprises de novelas, que sempre foram a espinha dorsal da retenção de assinantes na plataforma e no canal Viva, tornaram-se o centro de uma disputa judicial acirrada. O que antes gerava apenas nostalgia e engajamento nas redes sociais, agora gera processos.
Atores e atrizes que ajudaram a construir o império da teledramaturgia global nas décadas de 80, 90 e 2000 alegam que a emissora está lucrando milhões com a exploração de suas imagens no streaming, enquanto repassa valores irrisórios — ou, em alguns casos, valor nenhum — para os artistas.
Essa situação expõe uma falha geológica nos contratos antigos. Quando essas novelas foram gravadas, a internet engatinhava ou nem existia comercialmente. Não havia cláusulas prevendo “streaming”, “video on demand” ou “exibição digital global”. A Globo, segundo as acusações, apoia-se na força dos contratos antigos para perpetuar uma lógica de apropriação, o que gerou a revolta da classe artística.
Victor Fasano e a Batalha por “O Clone”
Um dos casos mais emblemáticos e recentes é o do ator Victor Fasano. Galã de inúmeras tramas de sucesso, Fasano decidiu judicializar a questão após verificar os pagamentos referentes à novela “O Clone” (2001), um dos maiores sucessos de exportação da Globo e um dos títulos mais assistidos do Globoplay.
Segundo documentos que vieram a público, Fasano processou a Globo especificamente devido às baixas quantias recebidas pela entrada da novela no streaming. Ele pede uma revisão contratual, argumentando que a forma de consumo mudou e que o lucro da emissora com essas obras no ambiente digital é desproporcional ao que é repassado aos intérpretes.
A Justiça do Rio de Janeiro já notificou a emissora, que mantém a postura de não comentar processos em andamento. No entanto, o caso de Fasano é um alerta vermelho para a empresa: ele esteve em “Barriga de Aluguel” (1990) e “Caminho das Índias” (2009), obras fundamentais do catálogo. Se a moda pega, o custo de manter esse acervo pode se tornar inviável.
Maria Zilda: A Pioneira na Luta por Justiça Digital
Se Fasano é o caso mais recente, Maria Zilda Bethlem foi a pioneira a colocar o dedo na ferida. Com 50 anos de carreira e um currículo invejável que inclui “Caras e Bocas”, “Ti-Ti-Ti” e “Êta Mundo Bom”, a atriz abriu uma ação judicial que serviu de inspiração para seus colegas.
O argumento de Maria Zilda é sólido e expõe o vácuo jurídico da época. Ela alega que, durante seus 40 anos de contrato com a Globo, não havia legislação específica sobre streaming. Em entrevistas contundentes, ela afirmou que a emissora “se apossou” de seus sucessos antigos e segue lucrando com eles sem a devida contrapartida.
O processo de Maria Zilda, que ainda corre no Tribunal de Justiça do Rio, desafia a lógica de que o contrato de cessão de imagem assinado em 1980 ou 1990 daria direitos irrestritos para novas tecnologias surgidas décadas depois. É uma discussão sobre propriedade intelectual e direitos conexos que pode redefinir toda a indústria de reprises no Brasil.
O Caso Conrado e o Humor na Mira da Justiça
Não são apenas as novelas que enfrentam turbulência. O cantor e ator Conrado, que fez muito sucesso nos anos 80 e 90, também entrou na briga. Ele alega não ter sido pago pelas reexibições do humorístico “Os Trapalhões”, no qual atuou entre 1990 e 1994.
O caso de Conrado adiciona mais uma camada de complexidade, pois envolve programas de humor e variedades, que também são fortes atrativos do catálogo do Globoplay. Se a tese desses artistas for aceita pela Justiça, a Globo poderá ter que pagar retroativos milionários, o que inviabilizaria a estratégia de “cauda longa” do streaming, onde conteúdos antigos geram receita residual constante.
A esfera judicial da capital fluminense está abarrotada com esses processos, e a tendência é que mais artistas, vendo a coragem de Maria Zilda e Victor Fasano, busquem seus direitos. Isso cria um passivo oculto gigantesco para a emissora, que precisa responder a acionistas e manter a operação do streaming lucrativa.
A Mudança de Estratégia: O Futuro do Canal “Globoplay Novelas”
Diante desse cenário de insegurança jurídica com o acervo antigo, observa-se uma mudança sutil, porém firme, na curadoria do Globoplay. O canal “Globoplay Novelas” e os destaques da plataforma começam a dar menos espaço para obras muito antigas (cujos contratos são problemáticos) e a focar em duas novas vertentes.
A primeira vertente são as novelas mais recentes (produzidas de 2011 para cá). Nos contratos atuais dos atores, já existem cláusulas específicas e detalhadas sobre direitos de imagem para streaming, venda internacional e on-demand. Com essas obras, a Globo tem segurança jurídica: o que foi acordado já cobre a exibição digital, eliminando o risco de processos surpresa.
A segunda vertente, e talvez a mais notável para o público, é a invasão das produções internacionais, especialmente as novelas turcas. Ao licenciar uma novela estrangeira, a Globo paga um valor fechado à distribuidora internacional e pode exibi-la sem se preocupar em pagar resíduos para o elenco turco ou mexicano. É um conteúdo “limpo” de problemas trabalhistas nacionais, que engaja muito o público e custa, comparativamente, menos do que gerir o passivo de uma novela nacional antiga.
Conclusão: O Novo Globoplay
O Globoplay está se metamorfoseando. A plataforma que nasceu como um grande arquivo da história da TV Globo está se tornando um híbrido. No front da inovação, os microdramas verticais em parceria com a Formata e outras produtoras garantem a conexão com o futuro e com a juventude, em um modelo de negócio onde os direitos já nascem ajustados à realidade digital.
No front do conteúdo tradicional, a era de ouro das reprises indiscriminadas pode estar chegando ao fim. O risco jurídico imposto pelos processos de atores veteranos como Victor Fasano e Maria Zilda força a emissora a pivotar para conteúdos onde ela tem controle total dos custos: novelas recém-saídas do forno e sucessos internacionais importados. O espectador ganha em diversidade e modernidade, mas pode começar a ver seus clássicos favoritos desaparecerem do catálogo ou serem “escondidos” para evitar novas batalhas nos tribunais.







