A televisão brasileira vive um momento de inflexão, e a Rede Globo, outrora soberana absoluta na teledramaturgia, enfrenta um de seus períodos mais turbulentos. O desempenho pífio de “Coração Acelerado” não é apenas um tropeço isolado na grade de programação, mas sim o sintoma mais agudo de uma doença crônica que vem corroendo a qualidade e a relevância das novelas atuais.
Não se pode mais mascarar a realidade ou tentar enganar o público e o mercado publicitário: em relação às produções atuais, já tivemos tempos infinitamente melhores e níveis de excelência que hoje parecem uma memória distante. A audiência despenca não por falta de televisores ligados, mas por uma desconexão profunda entre o que é produzido e o que o telespectador deseja consumir.
O fracasso de “Coração Acelerado” era, para muitos observadores atentos e profissionais do meio, uma tragédia anunciada muito antes do primeiro capítulo ir ao ar. Houve diversos avisos prévios sobre a fragilidade da premissa e, especificamente, sobre a execução técnica da trama.
A parte “cantante” da novela, vendida como o grande atrativo, na verdade botava pavor na equipe interna bem antes da estreia. A escalação de atores para papéis de músicos, sem a devida preparação ou talento específico para tal, resultou em performances que não convencem ninguém. O público, hoje muito mais rigoroso e com acesso a produções globais de alta qualidade via streaming, não aceita mais ser subestimado com dublagens malfeitas ou carisma fabricado artificialmente.
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A Obsessão por Seguidores e a Morte do Talento Real nas novelas da Globo
Um dos pontos cruciais para entender essa derrocada é a mudança no critério de escalação de elenco, uma crítica constante nos bastidores entre autores mais experientes. A busca desesperada por engajamento nas redes sociais fez com que a emissora priorizasse protagonistas baseados em número de seguidores ou para cumprir agendas de “lacração” momentânea, em detrimento do mérito artístico e do talento genuíno. Essa inversão de valores cobra seu preço na tela: influenciadores podem garantir likes no Instagram, mas não seguram a audiência de um drama diário que exige profundidade, técnica e capacidade de gerar empatia real, torcida e emoção no telespectador do começo ao fim.+1
A estrutura moldada para os trabalhos atuais precisa ser revista com urgência, pois o modelo vigente está afastando quem realmente gosta de novela. Não adianta a emissora recorrer a medalhões do passado, como cogitar trazer um Aguinaldo Silva de volta, se não oferecer as condições estruturais para que esses autores coloquem seus projetos no ar com integridade. O autor de novela, a mente criativa por trás da obra, foi gradativamente perdendo poder para comitês executivos e departamentos de marketing que entendem de números, mas pouco de alma humana. O resultado são tramas genéricas, sem a assinatura marcante que fez a fama da teledramaturgia brasileira no mundo, deixando o público órfão de grandes histórias.
A Falta de Respeito com a Obra e a Desconexão com o Público
Outro fator alarmante é a intervenção desmedida nas obras enquanto elas estão no ar, muitas vezes sem a concordância ou supervisão adequada dos criadores. É fundamental que o autor acompanhe os “cortes” e edições de sua novela, dando sua opinião para garantir que a narrativa não seja mutilada. Quando essa hierarquia é quebrada na tentativa desesperada de subir alguns pontos no Ibope, criam-se “Frankensteins” narrativos, levando a situações constrangedoras onde o próprio escritor precisa vir a público dizer “eu não escrevi isso”. Essa falta de coesão destrói a fidelidade do público, que percebe a falta de rumo da história.+1
Antigamente, a Globo era mestre em coletar dados sobre o público do horário e traduzir isso em arte popular de qualidade, mas essa competência parece ter se perdido. Hoje, a emissora parece produzir novelas para bolhas da internet e não para o Brasil real. Uma novela de sucesso tem que ter de tudo um pouco, assim como é a vida, definindo alvos claros e conduzindo a audiência a torcer pelos personagens. “Coração Acelerado” falhou no lançamento e falha diariamente em criar essa conexão, servindo como um alerta final: ou se retoma a valorização do talento e do respeito à estrutura narrativa, ou o formato continuará seu triste declínio rumo à irrelevância.








