A nova aposta da Globo, “Quem Ama Cuida”, acaba de quebrar a tradição de uma forma que está gerando um enorme desconforto. Historicamente, os autores de novelas sempre tiveram liberdade total e absoluta para batizar suas criações na televisão brasileira. Eles escolhiam os nomes que bem entendessem, seja para homenagear amigos ou simplesmente para criar figuras folclóricas que marcavam época. Nomes icônicos como Odorico Paraguaçu, Tufão, Dona Perpétua e Tancinha entraram para a história da teledramaturgia sem que o público questionasse as escolhas. No entanto,
A personagem interpretada pela talentosa Mariana Ximenes não recebeu um nome por acaso ou por inspiração criativa do autor da trama. A denominação da figura é, de forma direta, sem escalas e sem o menor pudor, um oferecimento descarado a uma marca patrocinadora: Eudora. À primeira vista, os executivos podem até tentar vender isso como uma ação de marketing genial e super inovadora para o mercado publicitário. Contudo, para quem assiste do sofá, a atitude transmite a péssima impressão de um exagero comercial gigantesco, onde a arte cedeu espaço ao capital.
Fica no ar aquela sensação amarga de que absolutamente tudo dentro da emissora precisa virar uma oportunidade imediata de faturamento. A pergunta que não quer calar nos corredores e nas redes sociais é: vale mesmo a pena ir tão longe e sacrificar a autenticidade da obra? Será que a toda-poderosa Globo acha que vai ficar significativamente mais rica vendendo até a certidão de batismo dos personagens? Essa sede incontrolável por dinheiro escancara uma mudança drástica nos valores da produção de novelas, ignorando os limites do bom senso.
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Audiência Derrapando e a Cautela da Globo
Se o faturamento parece garantido com o nome da personagem, o mesmo não se pode dizer dos números de audiência da nova novela das nove. Os primeiros capítulos de “Quem Ama Cuida” registraram médias bem ruins, ligando o sinal de alerta no painel de controle do Ibope nacional. Surpreendentemente, a alta cúpula da emissora carioca afirma que ainda não está incomodada com esse desempenho inicial totalmente abaixo do esperado. Eles alegam que essa largada fraca já era, de certa forma, esperada pela direção, que avalia a situação atual com extrema cautela e paciência.
A rede de televisão ficou até surpresa com a resiliência que a trama demonstrou, mesmo enfrentando um cenário brutalmente adverso na estreia. A novela precisou bater de frente com a transmissão de jogos de futebol super relevantes que foram televisionados pelas emissoras rivais no mesmo horário. Além disso, sofreu com uma mudança brusca de programação na quarta-feira e herdou uma audiência baixíssima de um noticiário morno do “Jornal Nacional”. O canal mantém o otimismo cego e acredita firmemente que a novela conseguirá estacionar na casa dos 25 pontos no Painel Nacional de Televisão até o final de julho.
A Inversão de Valores e a Revolta Contra Virgínia Fonseca
Saindo da teledramaturgia e caindo de cabeça no entretenimento, a emissora enfrenta uma verdadeira guerra fria com o setor do jornalismo. Há uma reclamação fortíssima, quase um motim, por parte de profissionais da imprensa contra a escolha de Virgínia Fonseca como “repórter na Copa do Mundo”. A revolta é generalizada ao ver uma influenciadora digital tomando o espaço sagrado de jornalistas formados e altamente qualificados. É a constatação dolorosa de que a empresa prefere escalar uma “estranha” da internet em vez de pessoas que passaram anos estudando para a função.
Essa distorção de valores e a concessão de espaços nobres para influenciadores, no entanto, não é uma novidade exclusiva da atual gestão. Há um esforço enorme e contínuo por parte das emissoras em privilegiar e inserir essa galera que tem milhões de seguidores em todos os contextos possíveis. Já vimos essa invasão acontecer nas próprias novelas e agora a estratégia atinge em cheio a cobertura de grandes e milionários eventos esportivos. No passado, a presença de ex-jogadores como comentaristas também foi duramente criticada no início, mas acabou sendo engolida e normatizada com o tempo.
A grande diferença é que em profissões sérias, como medicina, direito ou engenharia, quem exerce a função de forma irregular vai merecidamente preso. No jornalismo televisivo, a coisa virou uma verdadeira zona sem regras, onde o número de curtidas no Instagram vale muito mais do que um diploma universitário. A ironia de tudo isso é que, salvo raríssimas exceções, ter sucesso nas redes sociais não garante absolutamente nada de crescimento de audiência na TV. Na maioria esmagadora das vezes, tentar converter seguidores de internet em telespectadores resulta em desastres e resultados bem desastrosos.
A Verdade Sobre o Cargo na Copa e o Flop do Dominguinho
Para tentar acalmar um pouco os ânimos exaltados dos repórteres esportivos, um detalhe crucial sobre o cargo de Virgínia Fonseca foi finalmente esclarecido. Ela de fato atuará como “repórter” durante a Copa do Mundo, mas todo o seu material será produzido única e exclusivamente para o “Domingão”. A influenciadora não terá absolutamente nada a ver com o departamento de esportes oficial da emissora ou com as transmissões técnicas das partidas. A ideia de Luciano Huck é apenas surfar no engajamento caótico da moça para gerar conteúdo de puro entretenimento e bastidores nos arredores do evento.
E por falar em tentativas furadas de atrair audiência, o final de semana da Globo amargou um fracasso que pegou a concorrência de surpresa. A primeira tentativa da emissora de retomar a produção de conteúdo próprio para a faixa do meio-dia nos domingos simplesmente não colou com o público. O badalado especial musical chamado “Dominguinho” não apenas afundou, como conseguiu a proeza bizarra de derrubar a audiência da emissora em todo o país. O programa teve um público infinitamente menor do que os números que são habitualmente registrados pela tradicional e batida sessão de filmes.
A rejeição ao novo projeto dominical foi tão brutal que, em algumas praças importantes de medição, o especial musical chegou a perder a liderança. A grande beneficiada com esse tropeço estratégico foi a TV Record, que manteve sua programação normal com enlatados e viu seus números crescerem sem esforço. O atraso na exibição da “Temperatura Máxima” empurrou o telespectador direto para o colo da concorrência, mostrando uma falha grave de leitura de público. Essa sucessão de apostas arriscadas, desde nomes vendidos em novelas até influenciadores na Copa, mostra que a fase de testes da emissora está custando caro.









