A Rede Globo vive um momento de profunda transformação em suas estratégias de conteúdo e publicidade, navegando entre a inovação necessária para capturar o público digital e a contenção de despesas que tem gerado resultados controversos. De um lado, a emissora carioca decidiu investir pesado em um novo formato de teledramaturgia: os microdramas. Do outro, enfrenta uma crise de imagem institucional devido ao uso de Inteligência Artificial em suas campanhas, resultando em recriações digitais de seus jornalistas que foram classificadas como bizarras pelo público e pela crítica especializada.
A aposta em microdramas não é um movimento isolado da Globo, mas sim uma tendência de mercado que diversas empresas de mídia estão adotando agora. A emissora, no entanto, decidiu elevar o nível do jogo ao promover investimentos em alta escala para garantir que esse novo produto não seja apenas um teste, mas um pilar de sua programação digital. O objetivo é claro: conquistar a audiência da internet, que possui hábitos de consumo comprovadamente diferentes dos telespectadores da TV aberta tradicional.
No entanto, enquanto a dramaturgia respira novos ares, o departamento comercial e de marketing enfrenta turbulências. O ano de 2025 não apresentou o desempenho comercial favorável que a direção esperava, o que forçou a empresa a buscar maneiras agressivas de cortar custos. Foi nesse cenário de austeridade que a decisão de ceder ao uso de ferramentas de Inteligência Artificial para a produção de campanhas foi tomada, gerando um resultado visual que está sendo considerado um verdadeiro desastre estético e de credibilidade.
Este artigo analisa os dois lados dessa moeda: a promissora indústria das mininovelas que reaquece o mercado de trabalho artístico e o passo em falso tecnológico que deixou apresentadoras consagradas irreconhecíveis aos olhos do público.
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A Era dos Microdramas: Uma “Fila de Novelas” Digital
A principal motivação para o investimento massivo da Globo nos microdramas reside em uma exigência intrínseca do próprio formato. Por se tratar de um conteúdo desenhado para o “consumo rápido”, com histórias que se resolvem basicamente entre 40 ou 50 capítulos, a produção não pode se dar ao luxo de pausas. A lógica é a da frequência: a produção tem que ser incessante para conseguir “marcar lugar” e criar o hábito de consumo nas redes sociais e em outras plataformas de streaming.
O público-alvo da internet consome conteúdo em uma velocidade muito superior à da televisão convencional. Vai daí a necessidade estratégica da emissora de, logo de cara, investir em uma quantidade bem confortável de títulos para evitar buracos na grade digital. A Globo já percebeu essa nuance e trabalha atualmente em nada menos que oito projetos simultâneos de microdramas ou mininovelas.
Neste primeiro momento de implementação, a emissora encara o novo desafio com a seriedade de sua grade principal, tratando os projetos como se fosse uma “fila de novelas” tradicional. A ideia é ter uma produção sempre pronta para estrear depois da outra, sem parar, garantindo que o usuário sempre tenha uma novidade para maratonar. Essa estratégia visa fidelizar um público volátil que migra de plataforma assim que o conteúdo acaba.
O Novo Celeiro de Talentos e o Fim da “Malhação”
Essa nova diretriz industrial traz um benefício direto e imensurável para o mercado de trabalho artístico. A produção em escala industrial de microdramas gera oportunidades para centenas de profissionais em diversas áreas, desde técnicos até roteiristas. Há autores, inclusive, que estão envolvidos em mais de uma novela simultaneamente — e até prestando serviços para diferentes companhias, inaugurando novos e auspiciosos tempos de flexibilidade contratual.
Durante décadas, a novela “Malhação” serviu como a principal porta de entrada e laboratório para novos talentos na Globo. O fim da produção fechou a porta que existia para muitos setores da dramaturgia, deixando atores e atrizes em início de carreira sem uma vitrine clara para desenvolvimento e exposição. Os microdramas, verifica-se agora, chegaram para ocupar esse vácuo e podem muito bem se prestar a essa função pedagógica e de descoberta.
Além de revelar novos rostos, o formato permite experimentações narrativas que seriam arriscadas em uma novela das nove. É o ambiente perfeito para testar a recepção do público a novos estilos de atuação e direção, servindo como um campo de provas para o futuro da televisão brasileira, que precisa se reinventar para competir com o TikTok e o YouTube.
Jade Picon e o Retorno em “Tudo por uma Segunda Chance”
Entre os destaques dessa nova safra de produções está o retorno de Jade Picon à dramaturgia. A influenciadora e atriz, que foi tão criticada e apontada por excessos em sua estreia na novela “Travessia”, tem agora uma nova oportunidade. Em “Tudo por uma Segunda Chance”, Jade terá o palco ideal para dar sua resposta aos críticos e mostrar seu valor como atriz em um formato mais ágil e moderno.
O título da mininovela, “Tudo por uma Segunda Chance”, soa como uma feliz coincidência com o momento profissional de Jade, mas a trama promete ir além da metalinguagem. A aposta da Globo nela para um formato digital mostra que a emissora ainda vê potencial em sua força de engajamento nas redes sociais, o que é vital para o sucesso dos microdramas.
O elenco também conta com outros talentos promissores. Clara Portella, que vem de trabalhos consistentes como “Êta Mundo Melhor!” e “O Senhor e a Serva”, também vai aparecer na trama. A partir do capítulo 10, ela interpretará a versão mirim da personagem de Débora Ozório em cenas de flashback, reforçando a qualidade do casting dessas produções menores.
O Desastre da Inteligência Artificial: Economia que Saiu Caro
Se na dramaturgia a estratégia parece acertada, no marketing a situação é crítica. A Globo resolveu ceder à tentação da tecnologia e passou a usar a inteligência artificial para fazer algumas campanhas institucionais por um custo menor. A decisão foi tomada a despeito das críticas severas que concorrentes como a Record e o SBT já vinham sofrendo por utilizarem do mesmo recurso de forma questionável.
A motivação foi puramente financeira. Por causa do desempenho comercial não ter sido favorável neste ano de 2025, a Globo decidiu cortar custos operacionais onde fosse possível. No entanto, a economia na produção visual cobrou um preço alto na reputação de qualidade da empresa. O uso de IA serviu para recriar os artistas digitalmente, mas o resultado final os deixou irreconhecíveis e artificiais.
Os exemplos mais gritantes desse fracasso técnico foram as recriações das jornalistas Poliana Abritta e Maju Coutinho. As ferramentas de IA geraram avatares que caíram no chamado “vale da estranheza”, onde a semelhança é quase humana, mas imperfeições bizarras causam repulsa. O público reagiu negativamente, apontando que a campanha ficou bizarra. O que era para ser uma solução moderna transformou-se em um desastre de imagem, expondo a emissora a críticas sobre a desvalorização da imagem humana de seus contratados.










