A televisão aberta sofre um golpe histórico com a saída definitiva da competição continental da grade do SBT. A partir de 2027, o poderio financeiro das empresas estrangeiras dita as regras e empurra o torcedor para a internet.
O cenário das transmissões esportivas no Brasil acaba de sofrer uma reviravolta dramática que promete mudar para sempre a forma como o torcedor acompanha o futebol. O SBT, que nos últimos anos se consolidou como a casa da Copa Sul-Americana na TV aberta, perdeu a queda de braço pelos direitos de transmissão do torneio. A derrota nos bastidores significa que, a partir de 2027, a competição desaparecerá da televisão aberta tradicional, migrando exclusivamente para a TV paga e plataformas de streaming. A mudança marca o fim de uma era de acesso gratuito via antena, forçando uma adaptação tecnológica imediata por parte dos fãs.
A grande vencedora desta disputa bilionária foi a TNT Sports, marca da gigante Warner Bros. Discovery, que assumirá o pacote de jogos que antes pertencia ao SBT. No entanto, a estratégia para os canais “gratuitos” será totalmente digital. A partir do novo ciclo, os jogos que deixam de ser televisionados na TV aberta passarão a ser disponibilizados de graça, mas exclusivamente pelo canal do YouTube da TNT Sports. Isso ocorre porque a oferta vencedora foi uma compra conjunta de direitos entre a emissora fechada e a plataforma de vídeos do Google.
Enquanto isso, a parte paga e mais robusta das transmissões ficará sob a responsabilidade da ESPN e do serviço de streaming Disney+. O novo contrato, válido para o ciclo de 2027 a 2030, define que essas plataformas dividirão a totalidade dos jogos. Dessa forma, o consumidor terá que escolher entre assinar o serviço premium da Disney ou depender da conexão de internet para assistir às partidas selecionadas no YouTube da TNT, encerrando a conveniência de apenas ligar a TV para ver a bola rolar na Sul-Americana.
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A Vitória do Dólar: Por Que o SBT Perdeu?
Passado o choque inicial e o lamento pela perda de um ativo fundamental que conectava os torcedores aos clubes nacionais, os executivos do SBT abriram o jogo sobre os motivos da derrota. O consenso nos corredores da Anhanguera é que a FC Diez Media, empresa que gerencia a licitação da CONMEBOL, guiou-se por um único e frio critério: “quem paga mais”. A questão financeira atropelou qualquer argumento sobre alcance popular ou tradição na TV aberta, priorizando o montante final colocado na mesa de negociações.
A desigualdade econômica entre as empresas nacionais e os conglomerados internacionais foi o fator decisivo. É natural que empresas capitalizadas em dólar, como a Warner Bros. Discovery (dona da TNT Sports) e a Disney, tenham uma vantagem desleal. Um importante gestor do SBT confidenciou a dura realidade do mercado: “Difícil competir com essas empresas… Para nós o dólar é cinco vezes (mais caro). Já para eles o dólar é o dólar”. Essa disparidade cambial tornou a manutenção dos direitos financeiramente inviável para a emissora brasileira.
O Isolamento da Mídia Nacional e o Domínio Estrangeiro
A conclusão da licitação dos direitos da Libertadores e da Sul-Americana para o ciclo 2027-2030 desenha um mapa preocupante para a mídia nacional. O saldo final mostra que apenas o Grupo Globo conseguiu assegurar direitos de transmissão, mantendo a Libertadores na TV aberta. Todo o restante do bolo foi fatiado entre gigantes estrangeiros com sede nos Estados Unidos: Paramount, Disney e Warner. Isso evidencia uma perda de soberania das emissoras brasileiras sobre o conteúdo que é paixão nacional.
Até mesmo novos players com alto poder de investimento não conseguiram furar esse bloqueio. A CazéTV, por exemplo, que conta com a estrutura da Live Mode e ostenta um faturamento bilionário, também não conseguiu competir com o poderio da moeda americana das concorrentes internacionais. O mercado se fechou em torno de quem possui capital estrangeiro, deixando as empresas locais, sejam elas de TV tradicional ou digitais, sem munição para brigar pelos principais pacotes da segunda competição mais importante do continente.
Visibilidade em Risco e o Futuro das Transmissões
Com a confirmação da mudança, surge um questionamento inevitável sobre o futuro da própria competição: a Copa Sul-Americana perderá relevância e visibilidade? Ao priorizar a questão financeira e retirar a transmissão da TV aberta, a CONMEBOL aposta no dinheiro imediato em detrimento do alcance massivo. A TV aberta sempre funcionou como o canhão de audiência que populariza os torneios. Restringir o acesso a assinaturas e conexões de banda larga pode transformar o torneio em um produto de nicho, afastando o grande público.
Além disso, o cenário futuro traz ainda mais incertezas com as movimentações corporativas globais. A Warner Bros. Discovery anunciou recentemente um processo de fusão com a Netflix global, o que pode impactar diretamente a estratégia de atuação na América Latina. A grade de competições da TNT Sports faz parte desse “pacote” e deverá passar por avaliações estratégicas, o que pode significar novas mudanças na forma como o produto será entregue ao consumidor final nos próximos anos.
O Último Suspiro na TV Aberta
Apesar da notícia impactante, o torcedor ainda terá um tempo de despedida. O atual contrato do SBT permanece vigente e será cumprido até o final de 2026. Isso garante que as próximas edições da Sul-Americana ainda terão espaço na grade da emissora de Silvio Santos. No entanto, a partir de 2027, a regra muda: se a TNT seguir os moldes atuais, garantirá um jogo por rodada na fase de grupos e um confronto decisivo nas fases de mata-mata (playoffs, oitavas, quartas, semifinal e final), mas tudo pela tela do YouTube. O futuro chegou, e ele cobra em dólar e exige internet.







