O ano de 2025 se consolidou como um período financeiramente expressivo, porém repleto de controvérsias, para o cantor sertanejo Zezé Di Camargo. Levantamentos recentes apontam que o artista recebeu a impressionante quantia de R$ 20,044 milhões em verbas públicas para a realização de sua agenda de shows. O montante é resultado de 42 contratos firmados diretamente com prefeituras de diversas regiões do país, que utilizaram portarias e recursos do governo federal para custear as apresentações. A ironia da situação reside no fato de que a gestão federal, responsável pela liberação desses recursos, é liderada pelo presidente Lula, alvo frequente de críticas ácidas por parte do cantor em suas redes sociais e aparições públicas.
A dinâmica desses pagamentos revela um sistema de dependência das verbas estatais para a manutenção de cachês elevados no circuito sertanejo. Os valores pagos a Zezé Di Camargo variaram consideravelmente, dependendo da localização e do poderio financeiro de cada município contratante. O destaque financeiro ficou por conta da prefeitura de Fazenda Rio Grande, localizada no interior do Paraná, que desembolsou o maior cachê individual do período: R$ 600 mil por uma única apresentação realizada em setembro. Esse valor coloca em perspectiva o alto custo que os cofres públicos assumem para levar entretenimento de grandes nomes da música nacional às cidades do interior.
A distribuição geográfica dos shows financiados com dinheiro público mostra uma clara concentração nas regiões onde o agronegócio e a base conservadora são mais fortes. Goiás, estado natal do cantor, liderou o ranking de contratações, somando dez shows realizados exclusivamente em cidades do interior goiano. O Paraná, outro reduto forte do sertanejo, empatou com Goiás, também contratando o artista dez vezes. Em seguida, aparecem Mato Grosso e Minas Gerais, com cinco apresentações cada. O Nordeste teve uma participação mais tímida na agenda pública do cantor, com apenas três shows: dois em Pernambuco e um em Sergipe, evidenciando onde está o foco de influência do artista.
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Polêmica com a Família Abravanel e Prejuízos Comerciais
Além das questões envolvendo verbas públicas, Zezé Di Camargo se viu no centro de um furacão midiático envolvendo o SBT e a família Abravanel. A crise começou após a repercussão de um vídeo onde o cantor atacava duramente a emissora por receber o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, em uma cerimônia institucional do SBT News. A postura do cantor gerou uma reação em cadeia imediata e severa por parte do canal. Um especial de fim de ano, que já estava gravado e programado para ir ao ar, foi sumariamente descartado na semana de sua exibição, causando um rombo na grade e nas finanças da emissora.
A decisão do SBT de cancelar o especial não foi apenas uma retaliação editorial, mas uma necessidade comercial diante do constrangimento gerado. A emissora estuda agora cobrar judicialmente de Zezé o prejuízo financeiro causado, uma vez que duas cotas comerciais de patrocinadores já haviam sido vendidas para o programa. Com o cancelamento, a emissora precisa lidar com a devolução de valores e o desgaste com anunciantes. Nos bastidores, a ordem é clara: Zezé Di Camargo tornou-se persona non grata em todas as atrações da casa, fechando as portas de uma das maiores vitrines da TV aberta para o cantor por tempo indeterminado.
O impacto das falas de Zezé ultrapassou os muros da Anhanguera e atingiu diretamente sua agenda futura de shows públicos. Uma apresentação que estava agendada para o início de 2026, na cidade de São José do Egito, no interior de Pernambuco, foi cancelada. O contrato previa o pagamento de R$ 500 mil, também oriundos de repasses federais. O prefeito da cidade, Fredson Brito (Republicanos-PE), foi enfático em nota, afirmando que não aceitaria que o município fosse colocado no “centro de polêmicas decorrentes de questões individuais”, optando por rescindir o acordo e evitar o desgaste político.
Irregularidades Contratuais e Falta de Transparência
A análise dos documentos referentes aos shows de 2025 revelou ainda práticas administrativas preocupantes por parte de algumas prefeituras contratantes. Quatro dos acordos firmados para os shows de Zezé foram realizados no formato conhecido como “empenho por ausência de contrato”. Essa modalidade é geralmente utilizada na administração pública para compras de baixo valor e entrega imediata, dispensando a formalização burocrática de um contrato tradicional. Utilizar esse mecanismo para contratações artísticas de alto valor pode gerar sérios problemas na contabilidade dos municípios e atrair a atenção de órgãos fiscalizadores.
As cidades identificadas utilizando esse método pouco ortodoxo foram Loanda e Ubiratã, no Paraná; Paracatu, em Minas Gerais; e Canhotinho, em Pernambuco. A prática levanta suspeitas sobre a transparência e a regularidade dos processos de contratação, expondo os gestores municipais a riscos legais. Até o fechamento desta matéria, as administrações dessas cidades não haviam se pronunciado sobre a escolha desse modelo de contratação, deixando sem resposta os questionamentos sobre a legalidade dos pagamentos efetuados à empresa do cantor.
Todas as negociações envolvendo os órgãos municipais e o artista foram intermediadas pela Classical Holding Intermediação de Negócios Ltda. A empresa é a responsável legal por representar Zezé Di Camargo nesses acordos governamentais e recebe uma porcentagem sobre os valores milionários pagos pelas prefeituras. Diante de todo o cenário exposto, a assessoria de Zezé Di Camargo foi procurada para comentar tanto o recebimento das verbas federais quanto as polêmicas com o SBT, mas optou pelo silêncio, não respondendo aos contatos. Na terça-feira (16), o cantor chegou a pedir desculpas à família Abravanel, mas o estrago financeiro e de imagem já estava consolidado.








