O ano de 2026 começará com mudanças drásticas na grade de programação do SBT, sinalizando o fim de uma era de experimentações que não surtiram o efeito desejado. O programa “Luccas Toon”, comandado pelo fenômeno da internet Luccas Neto, sairá do ar definitivamente em janeiro, após uma trajetória marcada por baixos índices de audiência e custos operacionais elevados. A atração, que ocupava as manhãs de sábado desde o início de 2024, não teve seu contrato renovado e, pior, sofreu uma rescisão antecipada por decisão estratégica da alta cúpula da emissora.
A decisão de cortar o vínculo com o irmão de Felipe Neto não foi tomada de ânimo leve, mas foi estritamente pautada em números. Segundo apurações de bastidores, a falta de bons resultados comerciais e de público, somada ao alto custo mensal para o licenciamento do conteúdo do youtuber, tornou a manutenção do programa insustentável. O contrato original tinha previsão de término apenas para o final de fevereiro de 2026, mas a direção do SBT optou por antecipar o fim da parceria para que a grade do novo ano já iniciasse sem a pendência de um produto que não estava entregando o retorno esperado.
No lugar das esquetes e desenhos de Luccas Neto, o SBT decidiu apostar no seguro e no tradicional. O “Sábado Animado”, programa infantil clássico da emissora comandado por Silvia Abravanel, terá seu tempo de duração aumentado para cobrir o buraco deixado na grade. Essa movimentação demonstra um recuo da emissora em relação às inovações digitais e um retorno ao conteúdo que historicamente fidelizou o público do canal, provando que nem sempre o sucesso da internet é transferível para a televisão aberta.
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O Fracasso dos Números e o “Rebaixamento” na Grade
A trajetória de Luccas Neto na TV aberta foi, infelizmente, uma crônica de um fracasso anunciado pelos números do Ibope. Desde sua estreia em março de 2024, o “Luccas Toon” nunca conseguiu atingir os índices de audiência projetados pela diretoria comercial e artística do canal. A expectativa era que os mais de 40 milhões de inscritos do influenciador no YouTube migrassem para a frente da TV, mas isso não aconteceu. O público nativo digital permaneceu nas plataformas on-demand, ignorando a exibição linear.
A situação ficou tão crítica que, em maio, a emissora realizou uma manobra de emergência. Por causa dos baixíssimos índices que a atração alcançava em sua faixa original — um horário nobre para o público infantil, próximo do almoço, das 11h15 às 12h15 —, o programa foi transferido para o ingrato horário das 6h da manhã. O “rebaixamento” foi uma tentativa de esconder os números ruins, mas nem isso salvou o projeto. Em muitos dias, as esquetes de Luccas marcavam menos de 1 ponto de audiência na Grande São Paulo, onde cada ponto equivale a cerca de 199 mil telespectadores, um desempenho considerado “traço” para uma rede do tamanho do SBT.
Luccas Neto, que é ator, roteirista e empresário, consolidou-se como um dos maiores influenciadores do Brasil e acumula 23 bilhões de visualizações na web. No entanto, nos bastidores, o influenciador chegou a comentar com pessoas próximas que esperava muito mais de sua exposição em TV aberta. A frustração parece ter sido mútua: a emissora esperava a audiência da internet, e o influenciador esperava a massificação e o prestígio da TV, mas nenhum dos dois lados conseguiu concretizar seus objetivos nessa parceria.
Daniela Beyrute e a “Maldição” das Estreias de 2024
O cancelamento de “Luccas Toon” não é um fato isolado, mas sim o capítulo mais recente de uma série de apostas frustradas da nova gestão do SBT. O fim do programa marca mais um dos fracassos comerciais e artísticos das atrações lançadas sob a batuta de Daniela Beyrute em 2024. A filha de Silvio Santos assumiu a direção com a promessa de renovar o canal e trazer frescor à grade, mas a realidade imposta pelo controle remoto foi dura e implacável com as novidades apresentadas.
Para se ter uma ideia da dimensão da crise criativa, das 9 atrações criadas e lançadas por Daniela em seu primeiro grande pacote de gestão, apenas 3 seguem no ar com alguma estabilidade: “Sabadou com Virginia”, “Eita Lucas!” e o “Podnight”. E mesmo este último, que exibe cortes de podcasts famosos na madrugada, já está na corda bamba e deve ser o próximo a ser cancelado devido à baixa relevância e retorno. O saldo de 2024 é negativo e expõe a dificuldade da emissora em dialogar com novos públicos sem perder a sua essência popular.
A lista de produções que não deram certo é extensa e variada. Além do infantil de Luccas Neto, programas como “Chega Mais” (revista eletrônica matinal), “Tá na Hora” (jornalismo popular de fim de tarde), “SBT Agro”, “Circo do Tiru” e “É Tudo Nosso” foram apostas que naufragaram. A crítica especializada aponta que o principal erro foi tentar “gourmetizar” ou “digitalizar” a grade sem conversar adequadamente com o público tradicional da emissora, que busca um entretenimento mais simples, direto e popular, características que consagraram o SBT nas décadas passadas.
O Abismo entre Influenciadores e a TV Aberta
O caso de Luccas Neto reacende o debate sobre a transição de influenciadores digitais para a televisão. O SBT apostou alto na tese de que a popularidade nas redes sociais garantiria audiência na TV, mas a realidade provou-se diferente. O público infantil de hoje consome conteúdo de forma ativa, escolhendo o que quer assistir e quando quer assistir em tablets e celulares. O modelo passivo da TV aberta, com horários rígidos e intervalos comerciais, parece não ter apelo para a geração que Luccas Neto cativou no YouTube.
Além disso, o custo para manter uma estrutura de licenciamento de conteúdo premium da internet é alto. Enquanto o “Sábado Animado” utiliza um acervo de desenhos que muitas vezes já pertence à emissora ou tem custos de exibição mais baixos, o “Luccas Toon” exigia um investimento mensal significativo. Sem a contrapartida da audiência para atrair anunciantes de peso, a conta parou de fechar. A TV aberta vive de números massivos, e o nicho da internet, por maior que seja, muitas vezes não é suficiente para sustentar um programa em rede nacional.
Agora, o SBT inicia 2026 com uma estratégia de “volta às origens”. Ao rescindir antecipadamente com Luccas e devolver o tempo para Silvia Abravanel, a emissora sinaliza que parou de tentar inventar a roda e vai focar no que sempre funcionou. Resta saber se essa correção de rota será suficiente para estancar a perda de público ou se a emissora precisará de uma reformulação ainda mais profunda para sobreviver em um mercado cada vez mais competitivo e fragmentado.







