O ano começa com ventos de mudança soprando forte nos corredores da Anhanguera, sinalizando que o SBT não está disposto a ser apenas um coadjuvante na guerra de audiência da televisão aberta. Após um período de incertezas e de uma grade voltada majoritariamente para o público infanto-juvenil e enlatados mexicanos, a direção da emissora decidiu que é hora de retomar o protagonismo na teledramaturgia nacional. No primeiro trimestre deste novo ano, o assunto “novelas” será colocado novamente à mesa de reuniões como prioridade absoluta, mas com uma abordagem completamente reformulada. A ordem não é apenas voltar a produzir, mas reinventar a forma como o SBT faz ficção, buscando um modelo de negócio sustentável e competitivo.
Essa movimentação estratégica surge em um momento crucial para o canal, que busca reconquistar a vice-liderança perdida e dialogar com um público mais amplo e adulto. Há o desejo claro e manifestado da direção em voltar a produzir folhetins inéditos, resgatando a tradição da casa que já entregou sucessos memoráveis no passado. No entanto, a grande novidade não está no “o quê”, mas no “como”. A maneira de produzir será bem diferente daquela que vinha acontecendo nas últimas décadas, marcada por produções longas, inteiramente caseiras e focadas em um nicho muito específico. O novo SBT quer diversificar e, para isso, entendeu que não pode caminhar sozinho em um mercado audiovisual cada vez mais caro e complexo.
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O Fim do Isolamento: A Era das Parcerias
A chave para essa nova fase da dramaturgia do SBT reside em uma palavra: parcerias. Uma das principais condições estabelecidas para que as novelas voltem a ser produzidas é o trabalho conjunto com grandes players do mercado. A emissora entendeu que o modelo de bancar 100% dos custos de uma produção, assumindo todos os riscos e limitações técnicas, tornou-se obsoleto diante da realidade econômica atual e da concorrência com o streaming. A ideia agora é buscar sócios estratégicos — sejam plataformas de streaming, produtoras independentes ou estúdios internacionais — para dividir a conta e multiplicar a qualidade.
Esse modelo de co-produção permite que o SBT tenha acesso a orçamentos mais robustos, elenco de primeira linha e tecnologias de ponta que, sozinho, talvez não conseguisse viabilizar. Além disso, as parcerias abrem janelas de exibição secundárias, permitindo que a novela seja exibida na TV aberta e, simultaneamente ou posteriormente, em serviços de vídeo sob demanda. Essa estratégia já é utilizada com sucesso pela Globo e até pela Band, e agora será o pilar central da retomada do SBT. O objetivo é criar produtos que tenham apelo tanto para o “sofá” quanto para a “telinha do celular”, maximizando o retorno comercial e a repercussão nas redes sociais.
Daniela Beyruti: Liderança Pessoal e “Mão na Massa”
O que torna esse movimento ainda mais significativo é o envolvimento direto da alta cúpula. Daniela Beyruti, vice-presidente do SBT e filha de Silvio Santos, não pretende delegar essa missão crítica a terceiros. A executiva pretende reconduzir todo o processo pessoalmente, garantindo que a nova dramaturgia carregue o DNA da emissora, mas com uma roupagem moderna e eficiente. Sua presença à frente das negociações sinaliza ao mercado que o projeto é a menina dos olhos da gestão e que haverá investimento real de tempo e recursos para fazer dar certo.
Daniela tem se mostrado uma gestora atenta às tendências e disposta a quebrar tabus internos. Ao assumir a liderança desse processo, ela busca evitar os erros do passado, como o prolongamento excessivo de tramas ou a falta de planejamento a longo prazo. Sua visão é pragmática: o SBT precisa de produtos fortes para alavancar a grade e atrair anunciantes premium. A executiva sabe que a novela é o produto mais fiel da televisão brasileira e, por isso, está disposta a “sujar as mãos” para garantir que os contratos de parceria sejam vantajosos e que as histórias escolhidas tenham potencial de sucesso popular.
Diversificação de Conteúdo: Além do Nicho Infantil
Embora o SBT tenha construído um império recente com novelas infantis como “Carrossel” e “Poliana”, o novo plano de dramaturgia indica um desejo de expansão. Trabalhar com parcerias abre o leque para tramas adultas, remakes de clássicos mexicanos com uma pegada mais brasileira ou até mesmo séries dramáticas. O mercado especula que a emissora pode voltar a investir em adaptações de textos latinos, mas com uma qualidade de produção cinematográfica, graças ao aporte financeiro dos parceiros.
Essa mudança de rota é vital para renovar a audiência. O público que cresceu assistindo às novelas infantis do SBT hoje é adulto e consome outros tipos de conteúdo. A emissora precisa acompanhar esse envelhecimento da sua base de fãs, oferecendo tramas que dialoguem com os problemas e sonhos da classe C brasileira, o público-alvo histórico do canal. Com a supervisão de Daniela, espera-se uma curadoria de textos que misture o melodrama clássico — que o público do SBT ama — com a agilidade das narrativas modernas exigidas pelo streaming.
O Impacto no Mercado de Trabalho e na Concorrência
A decisão do SBT de reativar seu núcleo de novelas através de parcerias é uma excelente notícia para o mercado artístico. Com a Globo reduzindo seu banco de elenco fixo e a Record focada em tramas bíblicas, o SBT surge como uma nova vitrine de trabalho para autores, diretores e atores. A movimentação deve aquecer o mercado no primeiro trimestre, gerando empregos e movimentando a economia criativa.
Para a concorrência, o sinal é de alerta. Um SBT forte na dramaturgia, com o apoio de gigantes do streaming, pode alterar o equilíbrio de forças no horário nobre. Se a emissora acertar a mão na escolha do parceiro e da história, pode recuperar a vice-liderança isolada e incomodar a Globo em faixas horárias estratégicas. O ano começa com a promessa de uma televisão aberta mais disputada e com mais opções de qualidade para o telespectador, provando que a novela brasileira ainda tem muito fôlego, desde que saiba se reinventar nos bastidores.







