O encerramento de 2025 trouxe uma dor de cabeça inesperada e preocupante para a alta cúpula da TV Globo, evidenciando uma crise de audiência que atinge diretamente o coração de sua grade dominical. O último domingo do ano, dia 28 de dezembro, deveria ser um momento de celebração e retrospectivas, mas transformou-se em um pesadelo estatístico para o “Domingão com Huck”. O programa, comandado por Luciano Huck e considerado o carro-chefe do entretenimento da emissora, registrou um índice alarmante de apenas 9,2 pontos de audiência na Grande São Paulo.
Esse número, por si só, já seria motivo de reuniões de emergência, mas o cenário se torna ainda mais humilhante quando comparado ao desempenho de outras atrações da casa no mesmo dia. O “Globo Rural”, tradicional programa voltado para o agronegócio e exibido nas primeiras horas da manhã, superou o show de auditório do horário nobre. A atração matinal cravou 9,8 pontos, provando que o interesse do público pelo conteúdo rural foi maior do que pelo entretenimento de palco, algo impensável para os padrões de investimento e publicidade da emissora.
A derrota simbólica do “Domingão” não parou por aí e expôs uma rejeição do público ao formato atual. Antes da entrada de Luciano Huck no ar, a Globo exibiu o clássico filme “Titanic” na sessão de cinema vespertina. O longa-metragem, mesmo sendo uma reprise exaustiva de uma produção da década de 1990, conseguiu segurar a audiência acima da casa dos 10 pontos. Ou seja, ao iniciar o “Domingão”, houve uma fuga imediata de telespectadores, derrubando os índices deixados pelo filme e entregando um resultado pífio para o horário mais caro da televisão brasileira.
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Fantástico no Fundo do Poço: A Pior Marca da Década
Se a situação na tarde de domingo foi crítica, a noite não trouxe alívio para os diretores de jornalismo da Globo. O “Fantástico”, revista eletrônica que historicamente pauta as conversas da semana no Brasil, encerrou 2025 com o pior resultado consolidado de sua história. Confirmando as tendências negativas antecipadas por analistas de mídia, a atração fechou o ano com a média mais baixa desde a sua estreia, ocorrida no distante ano de 1973. O “Show da Vida” parece ter perdido a capacidade de dialogar com a massa como fazia antigamente.
Segundo os dados oficiais de audiência apurados na Grande São Paulo, que servem como referência para o mercado publicitário nacional, o programa comandado por Maju Coutinho e Poliana Abritta obteve uma média de apenas 16 pontos ao longo de suas 52 edições anuais. Considerando que cada ponto equivale a aproximadamente 199 mil telespectadores, a perda de alcance é gigantesca. O programa, que já foi sinônimo de exclusividade e inovação, agora luta para manter dois dígitos de audiência em dias mais competitivos.
A queda não é um evento isolado, mas sim parte de uma erosão consistente que vem ocorrendo nos últimos anos. Em comparação com 2024, quando a atração marcou 16,8 pontos, houve uma retração de 5% na audiência. Pode parecer pouco percentualmente, mas em termos absolutos representa milhões de olhos que deixaram de sintonizar a Globo nas noites de domingo. A tendência de baixa é clara e preocupante: em 2022, a média do programa ainda era de 19 pontos, o que demonstra que, em apenas três anos, o “Fantástico” perdeu quase 20% de seu público fiel.
O Fenômeno “Titanic” e a Rejeição ao Auditório
A análise detalhada dos números do dia 28 revela um comportamento de consumo de mídia que desafia a lógica tradicional da programação linear. O fato de um filme longo e antigo como “Titanic” pontuar mais que o “Domingão com Huck” sugere que o telespectador estava disponível e com a televisão ligada. O problema, portanto, não foi a falta de gente em casa no fim de ano, mas sim a falta de interesse no conteúdo oferecido por Luciano Huck. O público preferiu ver o naufrágio do navio novamente a acompanhar as dinâmicas de palco e assistencialismo do apresentador.
O “efeito Globo Rural” é ainda mais sintomático. O programa do campo tem um público cativo e leal, mas historicamente possui um teto de audiência devido ao horário ingrato (domingo de manhã cedo). Quando esse teto supera o piso do programa de auditório da tarde, inverte-se a lógica de valor da grade. O mercado publicitário paga muito mais caro por um comercial no intervalo do Huck do que no Globo Rural, mas a entrega de audiência no último domingo inverteu essa equação, gerando um custo-benefício desastroso para os anunciantes do horário nobre vespertino.
O Desafio da Relevância em 2026
Diante desses números, a Globo entra em 2026 com a obrigação de reinventar seus domingos. A fórmula atual do “Fantástico”, que mistura denúncias policiais com reportagens de comportamento, parece desgastada diante da agilidade das redes sociais e do streaming. O público jovem, em especial, não vê mais o programa como um “compromisso inadiável” de domingo à noite. A revista eletrônica precisa encontrar uma nova identidade para estancar a sangria de ibope e evitar que 2026 registre novos recordes negativos.
Para o “Domingão com Huck”, o sinal de alerta é ainda mais estridente. Perder para a própria grade matinal é um vexame que não pode se tornar rotina. A direção precisará avaliar se o formato, herdado em partes do Faustão e adaptado ao estilo de Huck, ainda tem fôlego ou se necessita de uma reformulação completa. A concorrência com o streaming e a fragmentação da audiência exigem atrações mais dinâmicas e menos previsíveis. Se nada for feito, o “Show da Vida” e o “Domingão” correm o risco de se tornarem irrelevantes, vivendo apenas das glórias de um passado onde a liderança era absoluta e inquestionável.








