O ano de 2026 já está em curso e promete entrar para a história da TV brasileira como um dos períodos mais atípicos e movimentados de todos os tempos. A programação das grandes emissoras será refém de um calendário impiedoso e recheado de eventos que alteram completamente a rotina do telespectador. Diferente de anos anteriores, onde a grade seguia uma lógica previsível de estreias e encerramentos, 2026 impõe uma dança das cadeiras que vai do entretenimento ao esporte, passando obrigatoriamente pelo jornalismo político. A sensação é de que não haverá um único mês de “calmaria” para os executivos de TV, que precisarão brigar por cada ponto de audiência em um cenário cada vez mais fragmentado e competitivo.
A largada para essa maratona acontece, como de costume, com o principal reality show do país, mas em um contexto inédito. O “Big Brother Brasil 26”, que estreia no dia 12 de janeiro, carrega o peso simbólico de ser a primeira edição sem absolutamente nenhum envolvimento de Boninho. Embora na edição anterior ele já estivesse oficialmente fora do comando durante a exibição, sua digital ainda estava presente em todo o planejamento e preparativos. Agora, o voo é solo para a nova equipe, que terá a missão de manter o engajamento sem a figura daquele que foi a alma do programa por mais de duas décadas. É um teste de fogo para a Globo, que precisa provar que o formato é maior que o seu criador.
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A Resposta da Record: Boninho, Disney e “A Casa do Patrão”
Se na Globo a sombra de Boninho desapareceu, na concorrente ela surge gigante e com parceiros de peso. Logo após o término do BBB, a Record prepara sua contra-ofensiva midiática com a estreia do reality “A Casa do Patrão”. O projeto marca a nova fase do diretor na emissora da Barra Funda e traz um diferencial mercadológico agressivo: uma parceria estratégica com a Disney. Essa união entre uma TV aberta nacional e o maior conglomerado de entretenimento do mundo sugere que o investimento e a qualidade de produção estarão em outro patamar.
Embora os maiores detalhes do formato ainda sejam mantidos em segredo para gerar expectativa, a simples movimentação de mercado já causa tremores. A ideia de lançar a atração imediatamente após o fim do reality global é uma estratégia clássica de “herança de público”, tentando capturar os órfãos do confinamento que buscam nova diversão. A indústria aguarda ansiosamente para ver como o estilo de direção de Boninho se adaptará à cultura organizacional da Record e como a Disney influenciará na estética e nas dinâmicas do jogo, prometendo uma disputa acirrada pela liderança no horário nobre do primeiro semestre.
O Tsunami da Copa e das Eleições
Quando a poeira dos realities baixar, a televisão será tomada por um evento que monopoliza as atenções globais. A Copa do Mundo chega para alterar a grade de 11 de junho a 19 de julho, mas desta vez com uma pulverização de transmissões nunca vista. O mundial estará na TV aberta através do SBT e da Globo, além de cobrir a TV paga, o streaming e dominar o YouTube. Será mais de um mês onde novelas, jornais e programas de auditório ficarão em segundo plano, com todas as atenções concentradas no desempenho das seleções e nas narrativas que surgem dentro das quatro linhas.
E se o primeiro semestre é do entretenimento e do esporte, o segundo semestre será engolido pela política. Imediatamente após a Copa, o país mergulha no clima de campanha eleitoral. O noticiário será praticamente monotemático, cobrindo comícios, debates e escândalos, além da obrigatoriedade dos horários destinados aos partidos que picotam a programação. A TV aberta só voltará ao seu “jeitão de sempre”, com a grade estabilizada e o foco no entretenimento puro, a partir de 26 de outubro, depois de conhecidos os resultados das urnas. Será um ano curto para a ficção e longo para a realidade.
A Crise dos Números: O “Novo Normal” das Novelas
Em meio a esse turbilhão, a teledramaturgia da Globo enfrenta seu próprio dilema existencial. Há uma cobrança, até certo ponto compreensível, em torno de uma maior audiência para a novela das 21h. O termo “até certo ponto” é crucial aqui, pois reflete uma nostalgia de tempos que não voltam mais. As comparações são feitas com épocas em que a TV aberta reinava sozinha, gerando uma expectativa de números que hoje soam irreais. A atual trama, “Três Graças”, ilustra perfeitamente esse cenário paradoxal de qualidade versus quantidade.
Todos reconhecem, crítica e público, que “Três Graças” é uma boa novela. O monitoramento interno da emissora aponta resultados extremamente positivos nos grupos de discussão, com elogios à trama e aos personagens. No entanto, na frieza da exibição diária, o folhetim nunca ultrapassa a barreira dos 20 e poucos pontos. Isso não é um atestado de fracasso da obra, mas sim o retrato fiel da nova realidade. O resumo da ópera é que precisamos entender que o mercado mudou. A audiência foi diluída pelas “zilhões” de opções de streaming, redes sociais e vídeos on-demand, além das mudanças técnicas nos sistemas de medição. O sucesso hoje é qualitativo e de repercussão, não mais apenas numérico.
O Descaso com o Multishow e a Novela do Streaming
Enquanto a TV aberta se vira nos trinta, os canais fechados e o streaming do Grupo Globo vivem realidades opostas de gestão. O canal GNT segue bem obrigado, com uma identidade clara, mas já passou da hora de a Globo dispensar uma melhor atenção ao Multishow. A programação do canal de humor e música deixa muito a desejar, sobrevivendo de reprises em doses dobradas e uma falta de frescor criativo que afasta o público jovem, seu alvo original. A sensação é de abandono estratégico em detrimento de outras janelas.
Por fim, os bastidores do Globoplay também fervem com decisões controversas. A plataforma havia decidido desistir de produzir uma nova temporada de “Rensga Hits”, série que teve boa repercussão e apelo popular. Contudo, a informação que circula é que tem gente lá dentro que não se conformou com esse cancelamento. A pressão interna para uma mudança ou revisão de planos é forte, sugerindo que a última palavra ainda não foi dada. Em um ano de 2026 tão atípico, reviravoltas são esperadas não apenas nos roteiros das novelas, mas também nas decisões executivas que moldam o que assistiremos.











