Contra todas as probabilidades, apostas do mercado e até mesmo o desejo de boa parte da diretoria, o Aqui Agora chegou vivo a 2026. O jornalístico, que resgatou uma marca histórica da emissora, transformou-se em um verdadeiro “morto-vivo” na grade de programação do SBT. Executivos de finanças e de planejamento artístico já decretaram seu fim em diversas reuniões a portas fechadas, apontando a inviabilidade comercial e os baixos índices de audiência como motivos mais do que suficientes para o cancelamento imediato.
No entanto, quem sintoniza no canal no final da tarde continua encontrando o programa no ar. A sobrevivência do jornal é um fenômeno que desafia a lógica empresarial fria e só pode ser explicada pela persistência de um homem: Mauro Lissoni. O diretor de programação assumiu o produto como uma cruzada pessoal, defendendo sua permanência com unhas e dentes contra a vontade da ala executiva que enxerga apenas planilhas e lucro.
Para Lissoni, o Aqui Agora é mais do que números; é uma trincheira necessária em um horário extremamente difícil. Ele argumenta que matar o programa agora seria entregar de bandeja a audiência para a concorrência, sem ter um produto substituto à altura. Sua defesa apaixonada e sua influência política nos corredores da Anhanguera têm sido o escudo que protege a atração de ser substituída por mais uma reprise de novela mexicana ou um enlatado qualquer.
A situação, contudo, é crítica. O programa opera no vermelho, gerando prejuízos para o faturamento da emissora, que tem dificuldades em vender as cotas de patrocínio para um jornal policial sangrento em um horário que o mercado publicitário torce o nariz. Mesmo assim, o telejornal resiste, respirando por aparelhos, sustentado por uma combinação inusitada de teimosia diretiva e fracasso da programação que o antecede.
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O Efeito Colateral de “Coração Indomável”
A grande ironia que mantém o Aqui Agora no ar em 2026 não é seu sucesso, mas o fracasso de quem vem antes dele. A reprise da novela Coração Indomável, que deveria ser a alavanca de audiência da tarde, transformou-se em uma dor de cabeça sem tamanho para o SBT. A trama mexicana, que já foi um coringa de sucesso no passado, desta vez não engrenou e enfrenta uma rejeição do público.
Os números são alarmantes. A novela voltou a perder sistematicamente para a Band no horário, que exibe o consolidado Brasil Urgente. Ver o SBT cair para a quarta colocação, atrás da emissora do Morumbi, acendeu o sinal vermelho na diretoria. A novela entrega o horário com a audiência no subsolo, criando um buraco negro na grade que prejudica todo o prime time noturno da emissora.
É neste cenário de terra arrasada que o Aqui Agora ganha seu argumento de sobrevivência. Apesar de ter uma audiência considerada “muito ruim” para os padrões da casa, o jornalístico consegue o feito de elevar os índices deixados pela novela. Ele recebe em baixa e, aos trancos e barrancos, devolve a audiência em uma curva ascendente para a atração seguinte, o SBT Brasil.
Esse fenômeno transformou o patinho feio em uma espécie de “mal necessário”. Os defensores de Lissoni usam os gráficos de minuto a minuto para provar: se o Aqui Agora sair do ar e entrar outro produto que não tenha a agilidade do vivo, o desastre causado por Coração Indomável pode ser irreversível, comprometendo até mesmo a novela da noite e a linha de shows.
A Batalha Contra o Brasil Urgente
O cenário competitivo das tardes brasileiras em 2026 está mais acirrado do que nunca. A Band solidificou sua vice-liderança e, em alguns momentos, a liderança no segmento de jornalismo policial vespertino. O Brasil Urgente nada de braçada com a migração do público que foge do melodrama fraco da novela do SBT, criando uma fidelidade que o canal de Silvio Santos não consegue mais quebrar com facilidade.
O Aqui Agora tenta ser a resposta, mas sofre com a falta de investimento e estrutura. Enquanto a concorrência tem helicópteros e uma rede de repórteres azeitada, o jornal do SBT luta com o orçamento apertado de quem dá prejuízo. A “mágica” de Lissoni é fazer o programa parecer competitivo mesmo operando no limite dos recursos técnicos e humanos.
A estratégia atual é de contenção de danos. O objetivo não é mais vencer a Globo ou a Record, mas estancar a sangria para a Band. Quando a novela entrega em baixa, o jornal policial tem a missão ingrata de recuperar o público que já mudou de canal para ver Datena. É uma batalha de Davi contra Golias, onde Davi está desarmado e cansado.
Mesmo assim, o fato de o programa conseguir levantar os décimos preciosos ao longo de sua exibição é o que impede a assinatura da demissão coletiva da equipe. Ele funciona como um amortecedor de crise, impedindo que o horário nobre do SBT comece morto. É uma vitória técnica em meio a uma derrota comercial.
O Futuro Incerto e a Dependência de Lissoni
A pergunta que circula nos corredores é: até quando? A blindagem de Mauro Lissoni tem limites e o prejuízo financeiro é um argumento que, cedo ou tarde, costuma vencer em empresas de comunicação. Se a novela Coração Indomável for encurtada ou substituída por um sucesso, o principal argumento de defesa do Aqui Agora — o de que ele levanta a audiência — pode cair por terra.
Se o SBT acertar a mão na próxima novela da tarde e ela entregar bons números, a necessidade de um jornalístico “salva-vidas” diminui, e os olhos da diretoria financeira voltarão a focar no déficit do programa. O Aqui Agora vive, portanto, em uma simbiose tóxica: ele precisa que a novela vá mal para que ele pareça útil.
Enquanto isso, a equipe trabalha dia após dia como se fosse o último. A tensão nos bastidores é palpável, mas a ordem de Lissoni é continuar. Ele aposta que, com o tempo e a persistência, o hábito do público pode mudar e o faturamento pode reagir, transformando o programa em um case de virada.
Por enquanto, janeiro de 2026 segue com o Aqui Agora na tela. Condenado, criticado, deficitário, mas vivo. Um monumento à teimosia de um executivo e à complexidade da televisão brasileira, onde às vezes, ser o “menos pior” é o suficiente para garantir o emprego de centenas de pessoas por mais um dia.






