O ano de 2026 mal começou e a Record paranaense já enfrenta sua primeira e talvez maior crise ética e de imagem. Um episódio lamentável ocorrido na sexta-feira, dia 2 de janeiro, expôs as entranhas do sensacionalismo televisivo de forma crua e chocante. O âncora Guilherme Rivaroli, recém-chegado ao comando do Balanço Geral Curitiba, foi flagrado em um áudio vazado comemorando os índices de audiência obtidos às custas da dor alheia.
O incidente aconteceu durante um intervalo comercial da atração na TV, mas o que o apresentador não percebeu — ou esqueceu — é que a transmissão continuava ativa e com o som aberto para quem acompanhava o programa pelo canal da emissora no YouTube. Sem filtros, a máscara de seriedade caiu, revelando um profissional que celebrava o sofrimento de uma família como se fosse um troféu a ser exibido em planilhas de desempenho.
A frase que chocou a internet e os telespectadores foi dita em tom de euforia: “Podia ter um desaparecido por dia”. A declaração mórbida refere-se à cobertura exaustiva do caso de um jovem de 20 anos que sumiu no Pico Paraná. Para o apresentador, a tragédia pessoal de alguém serviu apenas como combustível para alavancar números que vinham sendo medíocres desde sua estreia.
O caso rapidamente viralizou nas redes sociais, gerando uma onda de repúdio imediata. A frieza com que a vida humana foi tratada, reduzida a meros pontos no Ibope, reacende o debate sobre os limites do jornalismo policial e a pressão desumana por resultados a qualquer custo dentro das emissoras de TV aberta, especialmente nas afiliadas que lutam centímetro a centímetro pela vice-liderança.
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A Obsessão pela Audiência e a Rivalidade com o SBT
Para entender o contexto desse comentário infeliz, é preciso analisar a situação de Guilherme Rivaroli na emissora. Ele assumiu a cadeira do Balanço Geral há menos de um mês, com a missão de recuperar o prestígio da RIC Record em Curitiba. No entanto, os resultados iniciais foram frustrantes, com a emissora amargando derrotas constantes não apenas para a Rede Massa (SBT), mas também sendo ameaçada pela Band e pela TV Evangelizar.
No áudio vazado, a obsessão pelos números fica evidente. Rivaroli não comentava sobre o caso em si ou sobre a esperança de encontrar o jovem, mas sim sobre a vitória matemática sobre a concorrência. “Não vão nos alcançar. No final a gente passou de novo eles [a Rede Massa] com a mesma história. Acho que deu 4,3 a 3,3 de média pra nós”, disparou ele, celebrando a vitória sobre a afiliada de Ratinho.
Essa mentalidade de “guerra” transforma o jornalismo em um campo de batalha onde a ética é a primeira baixa. Ao segurar a cobertura do desaparecimento por 70 minutos ininterruptos, o programa apostou na angústia e na curiosidade mórbida do público. A estratégia funcionou para os números, mas o preço cobrado foi a exposição da total falta de empatia de quem conduz o noticiário.
A frase “Podia ter um desaparecido por dia” revela que, para o âncora, a desgraça alheia é vista como uma oportunidade de negócio, uma tábua de salvação para seu emprego e status. É a confissão explícita de que a pauta policial não serve para informar ou prestar serviço, mas para segurar o telespectador na frente da tela através do medo e da comoção.
A Tragédia do Pico Paraná: O Humano por Trás dos Números
Enquanto o apresentador festejava seus 4 pontos de audiência nos bastidores, uma família real vivia o drama do desaparecimento de um ente querido. O caso explorado à exaustão pelo programa trata-se de um jovem de 20 anos que desapareceu durante a descida do Pico Paraná, em Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba.
O rapaz, que havia escalado a montanha acompanhado de uma amiga para celebrar a virada do ano, está desaparecido desde o dia 31 de dezembro. As equipes de busca do Corpo de Bombeiros e voluntários trabalham incessantemente em uma área de difícil acesso, sob condições climáticas adversas, tentando encontrar algum sinal de vida.
Para a família, cada minuto é uma agonia. Para o Balanço Geral e seu apresentador, cada minuto sem notícias foi convertido em tempo de arte para especulações e repetição de informações, visando prender a atenção de quem estava em casa. A desconexão entre a gravidade do fato e a postura festiva do jornalista nos bastidores é o que torna o episódio tão repugnante.
Transformar o sofrimento de uma mãe que não sabe onde está o filho em “alegria” por bater a meta do dia é um retrato sombrio de parte da imprensa sensacionalista. O jovem desaparecido não era visto como uma pessoa com história e família, mas como um “conteúdo” rentável que garantiu a vitória sobre a concorrência naquela sexta-feira.
Comentários Escatológicos e Falta de Profissionalismo
Como se não bastasse a celebração mórbida, o áudio vazado ainda revelou um nível de informalidade grosseira e falta de decorum por parte do apresentador. Logo após desejar que houvesse mais tragédias diárias para garantir sua audiência, Rivaroli fez comentários escatológicos sobre suas necessidades fisiológicas, demonstrando total despreparo.
“Agora, preciso ir cagar primeiro, gente. Desculpa falar assim, mas eu tô segurando desde às 11h30. Deu dor de barriga esse pão”, disse ele à equipe técnica, sem saber que o Brasil inteiro poderia ouvir. A mistura de comemoração por uma tragédia com queixas intestinais cria uma cena grotesca, digna de um filme de terror satírico sobre a televisão.
Esse comportamento expõe a falta de postura de um âncora que ocupa um horário nobre local. Estar à frente de um telejornal exige, além de técnica, uma compostura que se mantenha mesmo quando as câmeras (supostamente) estão desligadas. O respeito pela notícia e pelo público não deve ser um personagem, mas uma conduta constante.
O incidente também levanta questões sobre a equipe técnica e a direção do programa. Como um microfone permanece aberto em uma transmissão de streaming por tanto tempo sem que ninguém na cabine de controle perceba? O erro técnico foi o estopim, mas o conteúdo revelado é de inteira responsabilidade de quem o proferiu.
O Silêncio da Emissora e a Repercussão Negativa
Até o momento da publicação desta reportagem, nem a RIC (afiliada) nem a Record TV (cabeça de rede em São Paulo) se manifestaram oficialmente sobre o ocorrido. O silêncio das empresas contrasta com o barulho ensurdecedor nas redes sociais, onde o vídeo do momento já acumula milhares de visualizações e comentários indignados.
A crise de imagem é severa. A RIC tenta se posicionar como uma emissora comunitária, próxima do povo e defensora dos valores familiares. Ter seu principal apresentador desejando o desaparecimento de cidadãos para inflar o ego e a audiência vai diretamente contra qualquer missão editorial que a empresa pregue em seus manuais de conduta.
Internamente, o clima deve ser de tensão absoluta. O mercado publicitário costuma ser implacável com marcas que se associam a esse tipo de escândalo. Anunciantes não querem seus produtos vinculados a quem torce por desgraças. A pressão por uma atitude enérgica da direção — seja uma suspensão ou demissão — cresce a cada hora que o vídeo circula.
Resta saber se Guilherme Rivaroli terá condições morais de voltar ao ar na próxima segunda-feira e olhar nos olhos do telespectador para dar notícias de novos desaparecimentos. A confiança foi quebrada, e a frase “podia ter um por dia” ficará marcada como uma das páginas mais infelizes da televisão paranaense em 2026.







