A próxima segunda-feira, dia 12 de janeiro, promete ser um dia D para a direção da RedeTV! e para o futuro de sua grade de programação. José Luiz Datena, um dos maiores nomes do jornalismo policial brasileiro, tem seu retorno agendado ao comando do Brasil do Povo após um período de folga. No entanto, o que deveria ser apenas a volta de um descanso transformou-se em uma verdadeira novela de bastidores, repleta de tensão, insatisfação e negociações paralelas que ameaçam a permanência do apresentador na emissora de Amilcare Dallevo e Marcelo de Carvalho.
A atmosfera nos corredores do canal, localizado em Osasco, é de incerteza absoluta. Embora a assessoria de imprensa da emissora negue veementemente qualquer ruptura, garantindo que o apresentador estará no ar ao vivo na segunda-feira, fontes seguras indicam que a paciência de Datena chegou ao limite. A insatisfação não é um evento isolado, mas o acúmulo de promessas não cumpridas, falta de estrutura técnica e, principalmente, resultados de audiência que beiram o traço, algo inadmissível para um comunicador acostumado a brigar pela vice-liderança em suas passagens anteriores pela Band e Record.
O cenário torna-se ainda mais complexo com a confirmação de que Datena já possui um “plano B” — ou talvez um “plano A” — em andamento. A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) confirmou, ainda em dezembro, um acordo para que o jornalista integre a grade da TV Brasil e da Rádio Nacional. Inicialmente desenhado para permitir uma jornada dupla, o acordo agora parece ser a porta de saída ideal para um profissional que se vê sem ferramentas para trabalhar na TV comercial, sinalizando que a sua estadia na RedeTV!, iniciada em junho de 2025 após sua saída do SBT, pode ser uma das mais curtas de sua carreira.
Além do drama envolvendo sua maior estrela, a RedeTV! enfrenta uma crise de identidade e gestão. A disputa interna entre os departamentos Artístico e Comercial tem gerado decisões esquizofrênicas na grade, onde a venda de horários e a busca pelo lucro imediato atropelam qualquer tentativa de construção de audiência sólida. Se a emissora deseja realmente se reinventar e voltar a ser competitiva, precisará resolver esse cabo de guerra interno antes que perca seus últimos nomes de peso.
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O Fracasso do “Brasil do Povo” e a Falta de Estrutura
Os números não mentem e são a principal fonte da irritação de Datena. Desde a sua estreia, o jornalístico Brasil do Povo jamais conseguiu alcançar a marca simbólica de 1 ponto de média na Grande São Paulo. O melhor desempenho da atração foi um modesto 0,7 ponto, registrado em julho do ano passado, um índice irrelevante para o mercado publicitário e frustrante para quem comandou o Brasil Urgente por décadas.
A baixa audiência é reflexo direto da falta de estrutura que Datena tanto reclama nos bastidores. Acostumado com helicópteros à disposição, dezenas de equipes de reportagem na rua e tecnologia de ponta, o apresentador se deparou na RedeTV! com uma realidade de “economia de guerra”. A emissora não oferece o suporte necessário para fazer um jornalismo policial competitivo, que exige agilidade e presença nos locais dos fatos, deixando o âncora “vendido” no ar, dependendo de vídeos da internet ou de uma cobertura precária.
Outro ponto de discórdia foi a tentativa frustrada de ajustar a grade. Datena, com sua experiência de televisão, tentou colar seu programa ao A Tarde é Sua, de Sonia Abrão, a única atração da casa que mantém uma audiência fiel e expressiva. A estratégia era aproveitar o público feminino e de variedades para alavancar o policialesco, mas a mudança não foi implementada, isolando o Brasil do Povo em um horário de baixo desempenho e sem alavancagem de audiência.
Facão na Grade: O Fim do “Manhã com Você” e as Demissões
Enquanto tenta apagar o incêndio no horário nobre, a RedeTV! promoveu um desmonte silencioso em sua grade matinal, evidenciando a falta de planejamento a longo prazo. O programa Manhã com Você foi cancelado sumariamente após apenas quatro meses no ar. A atração, que tentava competir no segmento de variedades e serviços, foi vítima da impaciência da direção e dos índices de audiência que também não reagiram.
A decisão foi brutal: praticamente toda a equipe de produção foi demitida, gerando mais um clima de velório na redação. Apenas dois nomes foram poupados do corte em massa: Alexandre Petillo e a apresentadora Taísa Pelosi, que devem ser realocados ou mantidos em “stand-by” para futuros projetos. Para cobrir o buraco na programação, a emissora recorreu à solução mais barata e preguiçosa possível: a exibição de compilados de vídeos virais da internet, conteúdo que não gera custo, mas também não gera prestígio ou fidelidade.
Esse movimento de trocar produção própria por conteúdo enlatado ou de internet é o sintoma claro da interferência do departamento comercial sobre o artístico. É mais barato exibir vídeos virais do que manter uma equipe de jornalistas e produtores, mas essa economia cobra seu preço na relevância do canal. Uma emissora que abre mão de produzir conteúdo ao vivo pela manhã sinaliza ao mercado que desistiu de disputar a atenção do telespectador naquele horário.
O Futuro: TV Brasil e a Encruzilhada da RedeTV!
Diante desse cenário caótico, o retorno de Datena na segunda-feira será monitorado com lupa. Se ele voltar, será sob uma tensão evidente. O acordo com a TV Brasil, cujos termos ainda estão em fase de ajuste final, oferece a ele a estabilidade de uma emissora pública, onde a pressão por audiência é menor e o foco pode ser mais institucional ou opinativo. A Rádio Nacional também oferece um refúgio para o comunicador, que sempre teve uma forte ligação com o veículo de áudio.
Para a RedeTV!, perder Datena seria um golpe duríssimo em sua tentativa de reposicionamento. No entanto, mantê-lo insatisfeito e sem estrutura é uma bomba-relógio. A emissora precisa decidir urgentemente se vai empoderar seu departamento Artístico para criar produtos de qualidade ou se continuará refém de uma lógica comercial que privilegia o lucro imediato em detrimento da relevância. “Na boa”, como diz o ditado popular, não dá para o comercial mandar em tudo. Ou a TV se reinventa, ou continuará vendo seus talentos saírem pela porta da frente em busca de condições mínimas de trabalho.







