A Globo precisa aceitar a necessidade urgente de diminuir drasticamente a duração de suas novelas, ou terão que lidar com prejuízos financeiros e de audiência incalculáveis. O modelo tradicional, que reinou absoluto por mais de cinquenta anos, dá sinais claros de exaustão, mas a liderança de mercado parece disposta a dobrar a aposta em formatos longos, desafiando a lógica do consumo moderno e testando a paciência de um público cada vez mais volátil e exigente.
No passado, a fórmula de folhetins que se estendiam por meses a fio funcionou perfeitamente, muito em função da falta de opções de entretenimento. Os modos e costumes eram outros, e a televisão era o centro incontestável da sala de estar brasileira, ditando horários e rotinas. No entanto, insistir hoje neste mesmo padrão, diante das mudanças tecnológicas e comportamentais que vieram a existir, é uma estratégia de alto risco que só irá aumentar o afastamento do telespectador. A fidelidade de outrora não existe mais, tendo sido substituída pela conveniência do “quando e onde eu quiser”.
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A Disputa Desleal: Streaming e Redes Sociais
As perdas de audiência registradas nos últimos anos já são significativas demais para serem ignoradas pelos executivos de televisão. Se antes o telespectador só tinha a TV aberta como janela para o mundo e para a ficção, hoje sua atenção é fragmentada. O público se divide entre o streaming, com suas séries de temporadas curtas e ágeis, as redes sociais com rolagem infinita e os vídeos curtos do TikTok e Instagram. A competição não é mais apenas entre canais, mas contra qualquer dispositivo que ofereça dopamina rápida.
A paciência que antes havia para acompanhar tramas lentas, hoje evaporou. O público moderno rejeita narrativas arrastadas, núcleos excessivos de personagens que não agregam à história principal e tramas que demoram semanas para avançar um único passo. O conceito de “barriga” na novela — aquele período onde nada acontece — tornou-se imperdoável. Muito por causa da insistênci a em modelos arcaicos e escolhas erradas de dramaturgia, concorrentes como o SBT se viram obrigados a fechar as portas de seus departamentos de novelas, um sinal de alerta que deveria ecoar em todos os corredores da indústria.
A Aposta de Risco de Walcyr Carrasco
É neste cenário de incertezas que surge uma informação que soa até um pouco assustadora para os analistas de mercado. Em seu próximo trabalho na Globo, o renomado autor Walcyr Carrasco deseja ultrapassar a marca de 200 episódios. A nova trama, provisoriamente intitulada “Quem Ama Cuida”, tem previsão de contar com 211 capítulos, uma extensão que remete às novelas da década de 90 e vai na contramão da tendência mundial de encurtamento de safras.
Pode dar certo? Claro que pode, afinal, Walcyr é um “hitmaker” que conhece o gosto popular como poucos e sabe costurar tramas de sucesso. No entanto, para segurar a audiência por tanto tempo em pleno 2026, o ritmo, os conflitos e as renovações dentro da história terão que ser constantes e frenéticos. Não existe outra maneira de manter o público ligado por mais de sete meses. Caso contrário, o risco de desgaste da obra, rebarbando negativamente na audiência e no faturamento, poderá ser enorme e irreversível.
Dança das Cadeiras e Títulos Provisórios
Nesse embalo de especulações sobre a nova superprodução, surgiram diversas informações de bastidores na Globo. Uma delas apontava que a novela teria um novo título, abandonando o nome de trabalho. Entre os títulos apontados como prováveis nas redes sociais e imprensa especializada, “Nas Profundezas do Amor” aparecia no topo da lista. A sonoridade dramática parecia combinar com o estilo do autor, mas a informação foi negada oficialmente.
A assessoria da emissora, quando consultada, foi categórica ao afirmar que “seguimos com o nome provisório ‘Quem Ama Cuida’”. O título “Nas Profundezas do Amor”, que chegou a circular com força, pode ser o nome de uma das tantas novelas verticais em curso para o Globoplay ou até mesmo outro projeto ainda embrionário. Essa indefinição mostra como o processo criativo e comercial é vivo, mas a certeza de uma duração longa já coloca uma pressão gigantesca sobre a equipe de roteiristas.
Renovação Total no Jornal da Globo
Enquanto a dramaturgia aposta no “mais do mesmo” em termos de duração, o jornalismo da Globo busca se reinventar para manter a relevância no fim de noite. O Jornal da Globo, comandado pela âncora Renata Lo Prete, passará por investimentos pesados e ganhará um novo formato. O telejornal terá um novo espaço físico anexo ao estúdio tradicional, dedicado exclusivamente para entrevistas aprofundadas, buscando resgatar a análise crítica que o horário permite.
Os convidados serão personalidades ligadas a fatos quentes e urgentes do noticiário. A ideia central é fugir do factual simples e aprofundar os temas da atualidade, explicando seus possíveis impactos na sociedade de forma didática e analítica. A estreia do quadro já tem data e convidado: acontece nesta quarta-feira (14), recebendo Felipe Nunes, diretor da Quaest. Ele fará uma análise do cenário político para 2026, com foco total nas eleições presidenciais de outubro, um tema que dominará a pauta nacional.
O “Efeito BBB” e a Estratégia de Horário
A estratégia da Globo para o Jornal da Globo não se resume apenas ao conteúdo, mas também ao posicionamento na grade. A emissora planeja que Lo Prete comande duas entrevistas densas por semana, e outros nomes de peso já estão sendo negociados para os próximos dias. Atualmente, o telejornal marca médias entre 7 e 9 pontos na Grande São Paulo, onde cada ponto equivale a 199 mil telespectadores, e a meta é elevar ou consolidar esses números usando a “alavanca” do entretenimento.
Diferentemente do que ocorreu nos últimos anos, onde o jornal entrava na madrugada, o Jornal da Globo começará em horário menos tardio durante boa parte da exibição do BBB 26. O telejornal passará a ir ao ar imediatamente após o reality show na maioria dos dias, tendo seu início previsto para por volta de 23h45. Essa mudança é vital: tenta capturar o público jovem e engajado do reality antes que desliguem a TV, oferecendo conteúdo de qualidade em um horário ainda acessível para quem trabalha no dia seguinte. É a Globo tentando equilibrar o entretenimento de massa com o jornalismo de prestígio para sobreviver aos novos tempos.









