A televisão brasileira vive um novo momento, onde o antigo ditado de que “o ano só começa depois do Carnaval” foi definitivamente enterrado. Impulsionada pela dinâmica frenética imposta por reality shows como o Big Brother Brasil, que aquecem o mercado publicitário e a audiência logo em janeiro, as emissoras de TV aberta entenderam que não há mais tempo a perder com “desculpinhas” de calendário. Nesse cenário de urgência e competitividade extrema, a Record tomou a dianteira e decidiu arregaçar as mangas muito antes da folia de momo, estabelecendo metas agressivas para o seu departamento de jornalismo e dramaturgia ainda no primeiro trimestre.
A ordem nos bastidores da Barra Funda é clara e foi transmitida “ao pé do ouvido”, mas com todas as letras, para toda a redação: é hora de crescer, inovar e, principalmente, se distanciar da concorrência direta. A emissora não está mais satisfeita apenas com a vice-liderança confortável em alguns horários; o objetivo agora é ampliar a vantagem sobre o SBT na Grande São Paulo e no Painel Nacional de Televisão (PNT), consolidando-se como a única alternativa viável à Globo, e, onde for possível, incomodar a líder de audiência.
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O Ultimato da Direção: Distância do SBT e Caça à Globo
Na última semana, um encontro decisivo marcou a virada de chave no jornalismo da Record. A direção reuniu toda a redação para um balanço que foi muito além de celebrar as conquistas recentes. O tom foi de desafio. O recado passado aos profissionais foi de que é necessário buscar mais: mais exclusivas, mais agilidade, mais conteúdo relevante e, consequentemente, mais audiência. A emissora entende que 2026 (considerando o contexto de Copa e Eleições mencionado) será um ano atípico e desafiador.
O desafio é duplo: enfrentar a cobertura de uma Copa do Mundo cujos direitos de transmissão a Record não possui — o que tradicionalmente drena a audiência para a emissora detentora — e realizar uma cobertura eleitoral robusta, que exige precisão, isenção e fôlego. Para isso, a estratégia traçada visa criar uma “gordura” de audiência antes desses grandes eventos, fidelizando o telespectador com um jornalismo de serviço e impacto.
A meta de se distanciar do SBT é tratada como prioridade absoluta. A emissora de Silvio Santos, embora enfrente suas próprias crises, continua sendo uma pedra no sapato em determinadas faixas horárias. A Record quer eliminar esse risco, tornando a disputa pelo segundo lugar uma página virada, para poder concentrar seus esforços em “beliscar” os índices da Globo, aproveitando-se das brechas que a programação da líder eventualmente deixa.
A Química de Milhões e o Investimento em ‘True Crime’
Para atingir esses objetivos ambiciosos, a Record aposta em fórmulas que já se provaram vencedoras, mas com uma nova roupagem. Um “tiro certo” da direção foi a união de Renato Lombardi e Reinaldo Gottino no comando do Cidade Alerta. A dupla, que já possuía uma sintonia fina no Balanço Geral, levou essa química para o final das tardes, criando um ambiente que mistura a dureza do noticiário policial com a leveza e o carisma de dois comunicadores populares.
Essa movimentação estratégica reforça a identidade do canal junto ao público popular. O telespectador “gosta e aprova” essa interação, que humaniza o jornalismo sem perder a credibilidade. A única peça que, segundo a crítica especializada e o público, ainda falta para completar esse time dos sonhos no horário nobre vespertino é Fabíola Reipert, cuja presença traria o elemento de entretenimento que consagra o Balanço Geral.
Além do jornalismo ao vivo, a Record está investindo pesado no segmento de documentários e true crime, um gênero que explode em popularidade no mundo todo. A série “Tremembé – Vida Real”, disponibilizada no RecordPlus, é o grande exemplo dessa nova fase. Com oito episódios, a produção resgata reportagens especiais e traz entrevistas exclusivas sobre crimes notórios cometidos por detentos da famosa penitenciária. Esse tipo de conteúdo denso e investigativo serve não apenas para a TV aberta, mas posiciona a Record como uma produtora de conteúdo relevante para o streaming.
A Revolução na Seriella: De Olho na Disney e Netflix
Não é apenas no jornalismo que a Record está se mexendo. A Seriella, braço de produção dramatúrgica da emissora, passa por uma reestruturação profunda visando o mercado global. A mudança no quadro de diretores de suas produções bíblicas sinaliza uma busca por um padrão de qualidade internacional. Nomes de peso como Leonardo Miranda, Alexandre Avancini e Carlos Manga Junior foram escalados para liderar essa nova fase.
O objetivo desse “combo” de mudanças é claro: melhorar os índices de audiência na TV aberta, mas também, e talvez principalmente, tornar o produto vendável para gigantes do streaming como Disney e Netflix. A Record percebeu que suas novelas e séries bíblicas têm um apelo que ultrapassa as fronteiras religiosas e nacionais, mas que precisam de uma linguagem visual e narrativa que agrade aos “players” globais.
Essa estratégia inclui um cuidado redobrado com o conteúdo, a representatividade no elenco e a monetização de suas obras. Ao mirar em parcerias com plataformas como Netflix e Disney, a Record tenta diversificar suas receitas e ganhar prestígio internacional, mostrando que a briga não é apenas pelo Ibope de São Paulo, mas pela relevância no mercado de entretenimento como um todo. O recado está dado: a Record não vai esperar o Carnaval passar para brigar pelo topo.







