A televisão brasileira vive um momento de intensa movimentação e incertezas, e o SBT encontra-se no epicentro de um furacão estratégico. Especialistas no assunto recordam com nostalgia um tempo em que trabalhar com a contraprogramação era considerado uma verdadeira arte na TV aberta. Essa tática consistia no artifício engenhoso de colocar no ar atrações diametralmente opostas àquelas que a líder de audiência, geralmente a Globo, estava exibindo ou prestes a apresentar. O grande inventor desse termo e mestre dessa estratégia foi Murilo Fraga, ainda em seus tempos áureos na emissora de Silvio Santos, onde ensinou muitos outros profissionais a replicarem esse modelo de sucesso.
No entanto, o cenário mudou drasticamente. O próprio Murilo Fraga, antes de sua saída durante a montagem da grade de 2024, compreendeu que a velha tática da contraprogramação já não surtia os mesmos efeitos diante da fragmentação da audiência e das inúmeras opções oferecidas pelos diversos players do mercado atual. Em sua última passagem, o desenho da grade apostou no confronto direto: novelas, jornais e programas de entretenimento batendo de frente com a concorrência, sob a lógica de que “quem pode mais, chora menos”. Infelizmente, o que poderia ter sido um sucesso esbarrou em uma seleção equivocada das pessoas contratadas para comandar esses novos programas.
Hoje, a emissora enfrenta a dura realidade de que não há muitos caminhos para escapar da concorrência direta. Observa-se uma preocupação latente no SBT em voltar a exibir um programa feminino nas manhãs, tentando corrigir os rumos do passado recente. A expectativa do mercado e dos telespectadores é que a lição amarga de dois anos atrás tenha sido aprendida e que os erros de escalação não se repitam. Para que essa nova empreitada funcione, é consenso que há a necessidade imperativa de um bom elenco, com pessoas capazes de fazer a diferença frente ao que as rivais já consolidaram nesse horário.
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A Lição Histórica do “TV Mulher” e a Falta de Especialistas
A história da televisão mostra que apostar no talento é sempre o caminho mais seguro, embora não seja uma tarefa fácil. A Globo do passado enfrentou um desafio semelhante quando sua direção decidiu que era hora de saltar à frente do que a Tupi, a Record e a Bandeirantes apresentavam no horário matutino. A solução foi a criação do icônico “TV Mulher”, um programa recheado de nomes de peso como Ney Gonçalves Dias, Marília Gabriela, Clodovil, Marta Suplicy, Ala Szerman e Xenia Bier. Com a direção de Nilton Travesso e um elenco desse calibre, não tinha como dar errado, provando que o investimento em qualidade humana é fundamental.
Contudo, o cenário atual revela uma carência preocupante de estrategistas de programação. Quando se analisa o mercado, somos obrigados a aceitar que existem pouquíssimos especialistas que realmente entendem do negócio de montar uma grade competitiva. Atualmente, ao que se sabe, apenas a Globo e a Record possuem profissionais dedicados e gabaritados nessa função específica. Nomes experientes como o próprio Murilo Fraga e Antonio Zimmerle (ex-Globo e Band) estão fora desse circuito principal, talvez indisponíveis devido a outros projetos de vida, o que deixa as demais emissoras em uma posição vulnerável.
Essa falta de “maestros” na programação reflete-se no que muitos consideram uma queda geral de qualidade na TV aberta brasileira. Não se trata apenas de um papo pessimista ou de mau humor, mas de uma preocupação genuína com o fato de que não se produz na quantidade que se deveria. Salvo raras e honrosas exceções, a qualidade do que vai ao ar está bem abaixo do ideal, muitas vezes não por falta de competência técnica, mas por simplesmente não saberem fazer melhor ou não terem a direção estratégica correta para guiar os conteúdos.
O Desfalque de André Azeredo e a Reação do Mercado
A fragilidade do SBT ficou evidente com a recente notícia da saída de André Azeredo, que decidiu voltar para a Record. O comentário de um dos funcionários mais antigos da casa reflete o sentimento de frustração que permeia os corredores da Anhanguera: “O SBT não pode mais tomar tantas bolas nas costas. Só neste começo de ano foram três”. A perda de talentos para a concorrência expõe a dificuldade da emissora em blindar seu elenco e manter uma estabilidade em sua grade, gerando a necessidade de improvisos e soluções rápidas para tapar os buracos deixados.
Diante da saída de Azeredo, a possibilidade mais comentada nos bastidores do SBT é o lançamento de um programa esportivo diário para ocupar a faixa das 11h30. O nome cotado para essa missão é o de Benjamin Back, que precisaria aceitar o desafio de comandar a atração. Essa movimentação demonstra que a emissora continua tentando encontrar formatos que possam estancar a sangria de audiência e oferecer algo relevante para o público, mesmo que isso signifique mudar o gênero do programa de jornalismo para esporte de uma hora para outra.
Por outro lado, a postura do SBT no mercado tem gerado atritos com outras empresas de comunicação. Os canais de notícias não estão felizes com a atuação do SBT News, acusando a emissora de quebrar um “acordo de cavalheiros” que existia nos últimos anos. Esse acordo tácito previa que as empresas não fariam propostas financeiramente “obscenas” para tirar profissionais das rivais. No entanto, o Grupo Silvio Santos tem assediado talentos com propostas muito acima dos valores de mercado, levantando dúvidas sobre como a emissora conseguirá bancar esses salários e fechar a conta no final do mês.
O Laboratório de Testes: De Ana Furtado ao WhatsApp
Enquanto tenta resolver os problemas no jornalismo e esporte, o SBT segue movimentando sua linha de shows. Já é grande a expectativa em torno do novo “Fábrica de Casamentos”, que contará com a apresentação de Ana Furtado e a presença garantida de Beca Milano. O projeto terá direção de Marcelo Kestenbaum e produção da Formata, sinalizando um investimento em formatos consagrados com novas caras. Além disso, houve um encontro entre Mauro Lissoni, executivo do SBT, e Luciana Gimenez, embora tenha sido apenas uma primeira conversa para apresentação de ideias e desejos, sem nada concreto ainda.
Outra frente de experimentação envolve o clássico “Casos de Família”, apresentado por Christina Rocha. O SBT estuda realizar mudanças drásticas, testando a exibição do programa em formato semanal, algo inédito para a atração. A ideia é reforçar as tardes de sábado, e para tomar essa decisão, a emissora recorreu a um método peculiar: abriu uma enquete em seu grupo de WhatsApp de telespectadores. A pergunta “O que você prefere: as emoções diárias ou a maratona do sábado?” tenta buscar respaldo popular para uma atração que hoje amarga médias de 3 pontos na Grande São Paulo.
Christina Rocha, que ficou um ano fora do ar após deixar o policialesco “Tá na Hora” (uma experiência que ela deixou claro não ter gostado), retornou com uma nova visão de mercado. Após experiências no Kwai e uma participação na divulgação do BBB 25 na Globo, ela afirmou em entrevista que “voltou com a visão de que existe vida fora do SBT”. O “Casos de Família” já sofreu diversas mudanças de horário desde sua reestreia em julho do ano passado, sendo deslocado das 14h45 para as 17h, o que reforça a tese de que o SBT ainda busca, muitas vezes às cegas, o encaixe perfeito para sua programação.






