A TV Globo parece estar disposta a promover uma verdadeira revolução em sua grade de programação nos próximos meses. A emissora carioca tem revirado intensamente as suas gavetas e arquivos em busca de antigos projetos de dramaturgia que acabaram engavetados. O objetivo dessa busca minuciosa é encontrar histórias fortes o suficiente para reconquistar o público e reestruturar horários que hoje sofrem com a concorrência e a fuga de audiência. Entre as descobertas, dois grandes títulos já estão na fila para o cobiçado horário das nove e também para o catálogo do Globoplay: “O Arroz de Palma” e “Paraíso Perdido”.
No entanto, a grande bomba que movimenta os bastidores da emissora é a discussão recente sobre uma possível e aguardada retomada da aclamada novela das onze (ou 23h). A ideia central da cúpula da emissora, que ainda depende de uma rigorosa análise de viabilidade financeira, é devolver à TV aberta o status de “primeira janela” de exibição. Atualmente, essa faixa de horário tem sido preenchida de forma quase exclusiva por produções que já estavam disponíveis primeiramente no streaming, o que acaba tirando o ineditismo e o impacto na televisão tradicional.
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O Retorno Triunfal do Legado de Gilberto Braga
Para alimentar esse possível retorno triunfal do horário das 23h, duas sinopses deixadas pelo saudoso e magistral autor Gilberto Braga (1945-2021) estão entre as obras que passaram por intensas reavaliações na Globo. A primeira delas é “Feira das Vaidades”, um projeto concebido originalmente para ocupar o tradicional horário das seis, desenvolvido em uma rica parceria com a autora Denise Bandeira. A obra promete resgatar o charme e os conflitos característicos das tramas de época, uma marca registrada que sempre cativou os telespectadores mais fiéis da emissora carioca ao longo das décadas.
A segunda joia resgatada dos arquivos é “Intolerância”, que se trata de uma ousada releitura do clássico “Brilhante”, sucesso exibido originalmente em 1981. Essa nova versão é assinada em conjunto com João Ximenes Braga, parceiro de longa data do autor. O mais interessante é que tanto “Feira das Vaidades” quanto “Intolerância” possuem narrativas densas, maduras e repletas de reviravoltas que se encaixam perfeitamente na proposta mais adulta e sem filtros que o horário das onze costuma exigir, abrindo espaço para debates profundos.
A Era de Ouro e a Queda da Faixa das Onze
É impossível falar da faixa das onze sem relembrar a sua “era de ouro” na televisão brasileira. Entre os anos de 2011 e 2018, a emissora exibiu oito títulos memoráveis que marcaram época. A estratégia inicial apostou na nostalgia, com os quatro primeiros lançamentos sendo remakes luxuosos de obras consagradas dos anos 1970: “O Astro” (2011), que inaugurou a faixa ganhando o Emmy Internacional; “Gabriela” (2012); a mágica “Saramandaia” (2013) e o suspense eletrizante de “O Rebu” (2014). Foram produções que provaram o potencial do fim de noite.
A partir de 2015, com o fenômeno absoluto de “Verdades Secretas”, a TV Globo mudou a rota e passou a apostar fortemente em tramas totalmente originais, ousadas e viscerais. Na sequência, o público foi presenteado com “Liberdade, Liberdade” (2016); o drama histórico “Os Dias Eram Assim” (2017) e a superprodução “Onde Nascem os Fortes” (2018). Contudo, o horário foi infelizmente extinto em 2019. A decisão culminou no cancelamento da obra “O Selvagem da Ópera”, de Maria Adelaide Amaral, e marcou a transição estratégica de dar ao Globoplay a exclusividade dos lançamentos, inciando com “Verdades Secretas 2” em 2021.
O Pesadelo Financeiro e a Fuga de Anunciantes
Apesar do grande apelo popular e da qualidade inegável das produções, a volta definitiva da faixa das onze esbarra em um obstáculo gigantesco: estudos complexos sobre custos, lucros e viabilidade comercial. “Feira das Vaidades”, por exemplo, é considerada nos bastidores uma novela extremamente cara para ser produzida, justamente por ser uma trama de época que exige investimentos colossais em figurino, cenografia e locações externas. Tudo isso eleva o orçamento a patamares de uma novela das nove, mas com um retorno potencialmente menor devido ao horário de exibição.
O grande temor da alta cúpula da emissora é investir uma fortuna em um horário que, naturalmente, possui uma audiência menor em comparação ao chamado horário nobre. Essa redução no número de televisores ligados consequentemente atrai um interesse bem menor do mercado publicitário e dos grandes anunciantes. Em tempos de orçamentos enxutos e concorrência acirrada com plataformas digitais, fechar essa conta matemática é o maior desafio para que os executivos batam o martelo e liberem a produção dessas supernovelas noturnas.
O Arroz de Palma e a Disputa pelo Horário Nobre
Essa mesma lupa implacável da análise financeira também pode acabar comprometendo outro grande projeto: “O Arroz de Palma”. O talentoso autor Bruno Luperi finalmente retomou a complexa adaptação do aclamado livro homônimo escrito por Francisco Azevedo. O projeto estava em uma espécie de compasso de espera desde que Luperi foi convocado para capitanear o estrondoso sucesso do remake de “Pantanal” (2022). A narrativa, que também é uma grandiosa obra de época, é desenvolvida ao longo de várias fases distintas, fator que encarece absurdamente qualquer produção televisiva devido às trocas de elenco e cenários.
Mesmo com os altos custos envolvidos, a obra segue com força total nos bastidores. Conforme informações antecipadas pela jornalista Carla Bittencourt, do Portal Leo Dias, “O Arroz de Palma” é atualmente a candidata mais forte para assumir a difícil missão de ser a sucessora direta de “Avenida Brasil 2”. A expectativa é que a trama ocupe o principal horário da televisão brasileira, o das nove, a partir de janeiro do ano que vem, prometendo emocionar o público com uma saga familiar profunda, cheia de tradições, conflitos geracionais e muito drama.
Paraíso Perdido e a Aposta Forte no Globoplay
Enquanto o destino da TV aberta segue em constante debate, o streaming da emissora já tem o seu próximo grande sucesso engatilhado. A obra “Paraíso Perdido”, que vem sendo desenvolvida com maestria por George Moura e Sergio Goldenberg a partir de textos e contos do genial Nelson Rodrigues (1912-1980), foi oficialmente definida como a próxima grande novela original do Globoplay. Com a direção cuidadosa e cinematográfica de Joana Jabace, a superprodução promete elevar o nível da dramaturgia nacional, conforme informações adiantadas pela coluna Play, do jornal O Globo.
Com uma roupagem totalmente contemporânea, “Paraíso Perdido” tem a ambição de debater de frente a atual onda conservadora que assola a sociedade do Brasil. A trama fará isso utilizando de forma inteligente os elementos mais marcantes, polêmicos e atemporais da obra de Nelson Rodrigues. O público pode esperar mergulhos profundos nos dilemas da alma humana, explorando sem pudores os intensos conflitos familiares, a sexualidade e, principalmente, a hipocrisia enraizada nas relações sociais. Até o fechamento desta reportagem, a Globo não se manifestou oficialmente sobre os projetos.








