A terça-feira, 18 de agosto, ficará eternamente marcada como a página mais triste, sombria e devastadora da história do entretenimento e da arte no Brasil. Como se não bastasse o luto profundo pela perda de uma gigante durante a madrugada, o público e o mercado televisivo sofreram um segundo golpe irreparável no período da tarde. Em um intervalo de poucas horas, o país foi obrigado a se despedir de duas das suas maiores pioneiras, lendas e pilares da teledramaturgia: Laura Cardoso, aos 98 anos, e Glória Menezes, aos 91 anos de idade. A coincidência trágica de perder duas atrizes dessa magnitude no exato mesmo dia deixou a classe artística completamente desolada e o público em choque.
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A Partida Silenciosa de Glória Menezes e a Premonição na Calçada da Fama
Glória Menezes faleceu de forma serena e tranquila no conforto de sua residência, localizada na cidade do Rio de Janeiro. A confirmação do óbito foi feita pela própria família através de uma nota oficial enviada à imprensa, optando por não divulgar a causa da morte até o momento. A atriz, que havia completado 91 anos recentemente, vinha mantendo uma vida bastante discreta e distante dos holofotes, tendo registrado o seu último trabalho em novelas no sucesso “Totalmente Demais”, exibido em 2015.
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Glória construiu um império irretocável ao longo de mais de seis décadas dedicadas de corpo e alma ao teatro, ao cinema e à televisão. A sua gloriosa estreia na telinha aconteceu no ano de 1959, na novela “Um Lugar ao Sol”, da extinta TV Tupi. A partir desse momento, ela assumiu o protagonismo de cerca de 40 produções televisivas, cravando o seu nome na eternidade com atuações brilhantes em clássicos absolutos como “Irmãos Coragem”, “Rainha da Sucata”, “A Próxima Vítima”, “Torre de Babel”, “Senhora do Destino” e “A Favorita”. Nas telonas do cinema, ela imortalizou a sua arte no aclamado “O Pagador de Promessas”, lendário filme brasileiro que venceu a cobiçada Palma de Ouro no Festival de Cannes e chegou a ser indicado ao Oscar na década de 1960.
Além de um currículo impecável, Glória formou com o ator Tarcísio Meira (1935-2021) o casal mais famoso, amado e duradouro da história da televisão brasileira. Eles viveram uma união inabalável de 59 anos, que só foi fisicamente interrompida com a dolorosa morte do ator. E é justamente nesse ponto que a partida de Glória ganha contornos arrepiantes e profundamente poéticos.
Apenas seis dias antes de falecer, em 12 de agosto, a veterana recebeu uma grandiosa homenagem da emissora onde trabalhou por décadas: a inauguração de uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, posicionada cirurgicamente ao lado da estrela de seu marido. Por motivos de saúde, a atriz não pôde comparecer à solenidade, sendo brilhantemente representada pelo seu filho, Tarcísio Filho, e pela sua nora, Mocita Fagundes. Em um discurso que hoje ressoa como uma verdadeira despedida, o herdeiro ressaltou a enorme coincidência daquela data: o evento ocorria exatamente no dia em que se completavam cinco anos da morte de seu pai. Muito emocionado, ele declarou: “Dona Glória sempre foi muito emotiva, muito emocionada (…) Tenho certeza de que ele está lá, olhando por nós, com um sorriso farto”. Mocita também registrou o momento nas redes sociais, relembrando o amor absoluto dos sogros e o último Réveillon feliz que passaram todos juntos em 2021.
O Legado de Laura Cardoso e os Bastidores do Luto
Antes do choque com a partida de Glória, o Brasil já havia acordado em lágrimas com o anúncio da morte de Laura Cardoso. A atriz de 98 anos, que iniciou a sua jornada nas radionovelas na década de 1940 e foi uma das desbravadoras da TV brasileira desde 1954, acumulou mais de 100 trabalhos irretocáveis na televisão. Ela deu vida a personagens que estão tatuados na memória afetiva do país, como Dona Isaura (“Mulheres de Areia”), Dona Guiomar (“A Viagem”), Sinhana (“Irmãos Coragem”) e a inesquecível vilã Dona Carmem (“Chocolate com Pimenta”).
Nos bastidores do jornalismo televisivo, o impacto da perda dessas duas gigantes foi imediato e avassalador. O colunista Flávio Ricco, uma das maiores referências na cobertura de TV no país, abriu espaço em sua coluna para lamentar profundamente as duas perdas no mesmo dia, classificando-as como as mais sentidas da nossa dramaturgia. O jornalista revelou um detalhe tocante de bastidor: quando ele e Zé Armando decidiram escrever a “Biografia da Televisão Brasileira”, precisaram procurar as grandes estrelas do mercado. Enquanto algumas figuras de menor expressão deram respostas negativas, atrizes da magnitude de Laura e Glória prontamente disseram “sim” e abriram as portas para contar a verdadeira história da TV.
A Corrida da Globo e a Crítica de “Flop” na Programação
Diante do peso esmagador de perder as suas duas maiores estrelas em um único dia, a TV Globo precisou montar uma operação de guerra para alterar drasticamente a sua grade de programação e garantir as merecidas homenagens.
Na própria terça-feira (18), a emissora tomou a decisão de cancelar a exibição tradicional do filme da “Sessão da Tarde” para colocar no ar um especial inteiramente dedicado à memória e à carreira de Laura Cardoso. No entanto, a atitude não escapou do olhar afiado da crítica especializada. A coluna “Canal D” não poupou palavras e classificou a atitude da emissora como um grande “flop”. O argumento é que uma artista com o peso, a história e a importância de Laura merecia muito mais do que um tributo improvisado no meio da tarde. Segundo os críticos, o especial caberia perfeitamente e de forma majestosa na linha de shows do badalado horário nobre, que atualmente encontra-se superlotada com programas que não despertam o interesse do grande público.
Já para quarta-feira (19), a Globo precisou derrubar a exibição do filme “Pureza” para levar ao ar a série documental “Tributo”, desta vez focada na trajetória monumental de Glória Menezes. O especial foi programado para ser transmitido logo após a reapresentação da novela “Além do Tempo”, na faixa da Edição Especial. Gravada em 2024, a produção revisita os momentos marcantes da atriz e reúne depoimentos calorosos de colegas e amigos, provando que artistas do calibre de Glória e Laura jamais terão uma substituição à altura na nossa televisão.






