O que deveria ser apenas uma noite de celebração e entretenimento na Cidade do Rock transformou-se em um pesadelo e em um caso de polícia para o ator João Victor Gonçalves. O artista, que atualmente está no ar interpretando o personagem Mau Mau na novela das nove “Quem Ama Cuida”, foi alvo de um ataque homofóbico brutal e covarde na madrugada deste sábado (5). Ao deixar as dependências do Rock in Rio e caminhar sozinho pela rua, o ator foi encurralado por um grupo liderado por GH, um streamer da plataforma Kick, que realizava uma transmissão ao vivo para seus seguidores.
As imagens, que rapidamente viralizaram e causaram revolta nas redes sociais, mostram o momento exato em que GH e seus acompanhantes passam a perseguir e hostilizar o artista. Sob a justificativa torpe de estar gerando “entretenimento”, o grupo proferiu comentários de cunho preconceituoso sobre a aparência, as roupas e o jeito de andar de João Victor, chamando-o aos gritos de “horroroso” e “feio”. Em um dos momentos mais tensos da gravação, um dos agressores chega a erguer um saco de lixo preto, quase atingindo a cabeça do ator, que, visivelmente amedrontado e focado em sua própria segurança, acelerou o passo para fugir da situação sem reagir às provocações.
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A DURA REALIDADE DE MAU MAU FORA DAS TELAS
A violência sofrida por João Victor escancara uma ironia dolorosa e cruel. Na trama de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, o seu personagem, Maurício (o Mau Mau), é um jovem que passa por um processo de autodescoberta de sua orientação sexual e que enfrenta a homofobia estrutural com valentia, muitas vezes engolindo a seco o preconceito. Foi exatamente esse paralelo que o ator traçou ao ir às lágrimas em um desabafo emocionante em seu perfil no Instagram.
Chorando, o artista relatou o medo profundo que sentiu de sofrer uma violência física ou um assalto, destacando que a vulnerabilidade imposta a ele reflete a realidade de milhares de pessoas que não possuem a mesma visibilidade. A repercussão do ataque mobilizou grandes nomes da mídia. O autor Walcyr Carrasco veio a público prestar total solidariedade ao ator, cravando que homofobia não é brincadeira, é crime. O ex-BBB e apresentador Gil do Vigor também publicou um vídeo indignado, relembrando as violências que sofreu e exigindo que os responsáveis sejam punidos exemplarmente, rebatendo o argumento de que o ataque seria apenas um “exagero” ou “mimimi”.
A INVERSÃO DE CULPA E A MANIPULAÇÃO DO AGRESSOR
O desdobramento do caso conseguiu ser ainda mais revoltante do que o ataque inicial. Após ser duramente criticado, o streamer GH tentou fazer um controle de danos em uma conta reserva no Instagram, publicando um pedido de desculpas raso onde afirmava que “não tinha preconceito” e que as pessoas estavam “tirando do contexto” o que era apenas uma brincadeira de rua.
No entanto, vendo que a desculpa esfarrapada não colou, o influenciador mudou drasticamente o tom e partiu para uma tática perversa de inversão de culpa. Em um novo pronunciamento, GH acusou João Victor Gonçalves de racismo. De forma manipuladora, o streamer distorceu o fato de o ator ter relatado medo de ser assaltado durante a perseguição, insinuando que esse temor só existiu porque ele (GH) é negro e mora em comunidade. Essa manobra absurda expõe uma tentativa grotesca de usar uma pauta séria (o racismo) como escudo para mascarar e justificar um crime de homofobia amplamente documentado em vídeo.
Ao exigir uma retratação da vítima, GH ignora completamente o fato de que foi ele quem iniciou as hostilidades, perseguiu um homem sozinho na rua e transformou o bullying em espetáculo para lucrar com visualizações. A atitude reflete o pior de uma geração que acredita que a internet é uma terra sem lei e que vale absolutamente tudo por engajamento e dinheiro.
POLÍCIA NO CASO: O FIM DA IMPUNIDADE DIGITAL
A tentativa de GH de sair impune transformando o caso em uma guerra de narrativas esbarrou na Justiça. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) do Rio de Janeiro confirmou que, ao tomar conhecimento das imagens que circulam na internet, instaurou uma investigação formal sobre o caso, mesmo antes de o ator registrar um boletim de ocorrência oficial.
A intervenção da Polícia Civil, aliada ao repúdio generalizado do público, do mercado e de figuras públicas, traça um limite muito claro: homofobia e racismo não são ferramentas para gerar engajamento em plataformas de streaming. A investigação da Decradi promete responsabilizar criminalmente os envolvidos, servindo como um alerta definitivo de que a impunidade mascarada de “entretenimento” está com os dias contados.
















