A TV Globo enfrenta uma verdadeira crise de identidade e de planejamento em duas de suas áreas mais vitais: o entretenimento de fim de semana e a teledramaturgia. Acostumada a ditar as regras do mercado e a nadar de braçada na liderança, a emissora carioca agora lida com formatos que não engajam o público moderno e aposta todas as suas fichas em sequências arriscadas para tentar resgatar a sua antiga glória competitiva. O cenário atual acende um alerta vermelho nos bastidores, escancarando que o público não aceita mais qualquer produto empurrado goela abaixo.
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A CRISE CONCEITUAL DO “EM FAMÍLIA COM ELIANA” NA GLOBO
O dominical Em Família com Eliana nasceu e foi vendido ao mercado publicitário com a premissa engessada de ser um “ponto de encontro entre famílias, anônimas e conhecidas”. Contudo, a atração vem provando que a teoria, muitas vezes, não funciona na prática. O grande paradoxo do programa é que ele só se torna realmente atrativo e interessante para o telespectador quando simplesmente ignora o seu próprio nome e a sua proposta original.
A insistência em focar em núcleos familiares tem custado caro para a audiência da emissora. No último dia 31, a atração amargou a sua edição menos vista desde a grande estreia, registrando parcos 7,3 pontos de média na Grande São Paulo. Embora ainda mantenha a liderança na maior parte do tempo, a dificuldade de emplacar índices mais robustos evidencia um erro grave de leitura social: em um mundo onde as pessoas estão distribuídas em diferentes telas, consumindo streamings e redes sociais em cômodos separados, a ideia de reunir a família tradicional em frente à TV soa datada. O formato tenta empurrar um contexto de “família margarina” com o qual o brasileiro dificilmente se reconhece hoje em dia.
O PESO DOS ANÔNIMOS E A TÁBUA DE SALVAÇÃO VIP
A análise dos quadros exibidos nos últimos meses mostra exatamente onde o programa acerta e onde ele afunda. As tentativas de emocionar o público com anônimos ou com parentes sem carisma de grandes estrelas fracassaram. As entrevistas com as famílias de Romulo Estrela, Thiago Oliveira e Luis Lobianco pouco empolgaram a audiência, não rendendo ganchos atrativos. Até mesmo a participação do cantor Mano Walter, um gigante do forró, rendeu apenas uma protocolar e apática homenagem dos filhos.
Em contrapartida, os picos de repercussão e interesse acontecem quando a emissora apela para convidados famosos, carismáticos e quadros mais soltos. Foi assim quando Ivete Sangalo e Dani Calabresa deram conselhos sentimentais hilários e dicas de sexo para a ex-BBB Beatriz Reis, ou quando Xande de Pilares e o Grupo Revelação comandaram um musical animado. Até uma visita surpresa de Flávia Alessandra ao veterano Ary Fontoura gerou trocas genuínas que lembraram os melhores tempos de Eliana no SBT. O recado do público é claro: a produção precisa focar em entretenimento espontâneo e abandonar o roteiro forçado de reuniões familiares.
O DESESPERO NA DRAMATURGIA E O RISCO DOS REMAKES
Se aos domingos a Globo patina com Eliana, na teledramaturgia a situação exige um cálculo ainda mais cirúrgico de seus próximos movimentos. A emissora sofreu uma queda importante de competitividade nos últimos tempos, fruto direto de decisões executivas e escolhas criativas malfeitas. Para voltar a despertar o interesse avassalador de antes, a rede precisa urgentemente parar de tornar as produções de remakes e continuações algo tão corriqueiro, além de reunir o que há de melhor em autores, atores, direção e cenografia no mercado.
O maior exemplo dessa dependência perigosa do passado é a aposta faraônica na continuação de seu maior sucesso recente. As gravações de Avenida Brasil 2 estão programadas para começar no mês que vem, e a emissora corre contra o tempo para acelerar a solução para os últimos papéis que ainda seguem abertos no elenco.
Para tentar justificar a existência da sequência e não ofender a memória da obra original, o autor João Emanuel Carneiro e seus colaboradores pretendem trazer a história para os tempos atuais. Isso significa que muita coisa na trama precisará ser atualizada em relação ao contexto da exibição de 2012, adicionando novos personagens e tramas bem diferentes da primeira versão. A grande questão que assombra os corredores dos Estúdios Globo é uma só: quem garante que a segunda parte repetirá o fenômeno da primeira? É um risco altíssimo que pode tanto salvar a audiência do horário nobre quanto manchar definitivamente o legado da inesquecível Carminha.









