O xadrez de alto risco da Globo: as dúvidas sobre ‘Avenida Brasil 2’, a cartada global em Cannes e o futuro das superproduções
A TV Globo atravessa uma fase de decisões estratégicas de grande impacto para a sua operação. Ao mesmo tempo em que investe em expansão internacional e comemora parcerias de peso no mercado de formatos sem roteiro, a emissora lida com o ceticismo do mercado em relação ao resgate de clássicos da dramaturgia e com atritos operacionais na medição de audiência.
Equilibrar a nostalgia de velhos sucessos com a necessidade de falar com um público hiperconectado tornou-se a grande equação da alta cúpula do canal para os próximos anos.
Table of Contents
O risco de mexer no sagrado: ‘Avenida Brasil 2’ e as incertezas do mercado
A estratégia da emissora em revelar o elenco de Avenida Brasil 2 em pequenas pílulas nas redes sociais conseguiu gerar barulho, mas também acendeu um sinal de alerta entre analistas de televisão. A sequência da novela de João Emanuel Carneiro, agendada para janeiro de 2027 sob a direção de Ricardo Waddington, carrega uma responsabilidade indigesta: tentar repetir o fenômeno de 2012 em um país profundamente diferente.
- Um Brasil transformado: Mais de uma década se passou desde que a saga de Carminha (Adriana Esteves) e Nina (Débora Falabella) parou o país. As dinâmicas de consumo de mídia, o engajamento do público nas redes e o ambiente socio-cultural brasileiro mudaram drasticamente, o que torna arriscada a tentativa de replicar fórmulas antigas.
- A engenharia do roteiro: O retorno de Carminha recém-saída da prisão e adotando uma fachada de benfeitora social precisará demonstrar fôlego para além do apelo saudosista, sob o risco de desgastar a memória afetiva de uma das maiores obras da dramaturgia nacional.
Projeção internacional: destaque na MipCom e aliança estratégica com a Banijay
Se a dramaturgia interna levanta debates, a atuação do grupo no mercado externo vive um de seus momentos mais prósperos. A delegação da Globo roubou as atenções durante a MipCom, em Cannes, impressionando produtores e distribuidores de diversos continentes com a estrutura apresentada.
A expansão ganhou contornos concretos com o anúncio da nova etapa da parceria com a Endemol Shine Brasil (grupo Banijay):
O acordo prevê o desenvolvimento conjunto de programas de reality show e séries documentais originais criadas no Brasil. A partir de 2027, a Globo assegura a preferência de exibição do conteúdo em território nacional, enquanto a Banijay assume a distribuição e venda dos formatos brasileiros para o mercado global.
A medida alinha-se ao objetivo do canal de transformar seus estúdios em um polo exportador de propriedades intelectuais, em vez de atuar apenas como compradora de licenças estrangeiras.
Entretenimento consolidado: Porchat garante 2027 e emissora peita o Ibope
Na linha de shows, a estabilidade comercial e o retorno de público garantiram a vida longa a um dos formatos mais bem-sucedidos do ecossistema de canais pagos da casa. O programa Que História É Essa, Porchat? teve sua renovação confirmada para 2027 no GNT e na TV Globo, alcançando sua nona temporada consecutiva.
Para acomodar o calendário da Copa do Mundo, a temporada atual do talk-show foi reduzida para 30 episódios — dez a menos que a média usual —, mantendo, contudo, faturamento em alta e forte apelo nas redes.
Reclamação formalizada por falha técnica
No ambiente operacional, a Globo uniu forças com o SBT para contestar oficialmente os relatórios de audiência entregues pelo instituto de pesquisa referente à transmissão do horário político. O apagão de áudio na propaganda partidária fez com que a emissora registrasse pontuações atipicamente baixas no sistema instantâneo, consideradas internamente os piores índices da década para o horário. As duas redes exigem explicações e a revisão dos critérios em transmissões ao vivo sem som.
A última fronteira dos debates eleitorais
Diante dos cancelamentos em série promovidos pelas emissoras concorrentes devido à incompatibilidade de agendas dos candidatos e recuos de última hora, a Globo desponta como a última oportunidade do eleitorado para acompanhar um confronto direto entre os postulantes ao Palácio do Planalto no segundo turno.
A expectativa do mercado é de que a tradição e o peso do jornalismo da emissora sirvam como fator decisivo para garantir a presença das duas campanhas no estúdio na reta final da disputa.




