Quando o assunto é a cobertura das eleições presidenciais de 2026, o maior conglomerado de mídia do país parece estar operando em dois tabuleiros completamente distintos. Embora façam parte do mesmo grupo, a TV Globo e a GloboNews adotaram caminhos editorialmente opostos ao abordar uma declaração polêmica do candidato Flávio Bolsonaro (PL), que prometeu utilizar uma eventual maioria no Congresso para promover mudanças na Constituição.
Enquanto a TV aberta optou por um tom ameno e quase protocolar, tratando a fala como um detalhe secundário, o canal de notícias da TV por assinatura foi para o embate direto, acusando a família do presidenciável de possuir um “DNA golpista”. O FaroPop dissecou essa diferença abismal de tom que vem chamando a atenção nos bastidores da imprensa.
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O “Aceno” e a Suavidade no Jornal Nacional
No Jornal Nacional, a principal e mais assistida vitrine jornalística do país, a promessa de Flávio Bolsonaro de alterar a Constituição sequer foi o gancho principal da notícia. O tratamento dado ao candidato foi notavelmente suavizado.
- Foco no Apoio Político: O âncora César Tralli abriu a reportagem destacando alianças políticas, sem mencionar a fala polêmica logo de cara. “Flávio Bolsonaro, do PL, recebeu hoje o apoio de Ronaldo Caiado, que concorreu à Presidência pelo PSD”, anunciou Tralli, chamando a matéria do repórter Honório Jacometo.
- A Maquiagem da Pauta: A reportagem seguiu exibindo cenas de um evento em Goiânia, destacando a reunião do presidenciável com políticos aliados, como o governador reeleito Tarcísio de Freitas e o próprio Caiado. O repórter enfatizou, primeiramente, o compromisso de Flávio em acabar com a reeleição.
- Citação em Segundo Plano: Apenas no final, e de maneira bastante atenuada, a frase sobre a Carta Magna foi inserida na cobertura: “O candidato disse que, se eleito, vai usar a maioria no Congresso para propor mudanças na Constituição”, limitou-se a informar o repórter do JN, sem grandes aprofundamentos ou críticas.
O Ataque Frontal no “Central das Eleições” da GloboNews
Se na TV aberta o clima foi de aceno, na GloboNews a temperatura ferveu. Durante o programa Central das Eleições, as comentaristas Natuza Nery e Flávia Oliveira foram implacáveis ao analisar a mesma declaração de Flávio Bolsonaro. Longe da suavidade do JN, o canal de notícias destrinchou o perigo por trás da promessa do candidato.
- O Alerta de Natuza Nery: A jornalista pontuou o uso da palavra “redemocratizar” por parte do candidato, alertando para o peso histórico da expressão. “O ‘redemocratizar’ fica piscando em letras garrafais por causa do nosso passado recente em relação à tentativa de golpe de Estado”, disparou Natuza.
- “DNA Golpista”: Flávia Oliveira foi ainda mais contundente. Ela afirmou que a preocupação existe “por causa desse DNA golpista antidemocrático da família Bolsonaro”. A comentarista relembrou o histórico do clã: “Jair Bolsonaro sempre defendeu a Ditadura Militar [1964-1985], os métodos, o domínio”.
- Ataque ao Clã: Flávia não poupou críticas à base familiar do candidato do PL, cravando que se trata de uma família “que nunca teve apreço pelo que se entende como democracia no sentido de respeito à vontade popular, de equilíbrio e harmonia entre os poderes”.
A Defesa da Constituição e o “Cheque em Branco”
A análise na GloboNews se estendeu para uma defesa veemente da Constituição brasileira — que completou 38 anos de promulgação no último dia 5 de outubro. Flávia Oliveira fez questão de listar tudo o que está em jogo caso o Congresso decida alterar a lei maior do país.
O que a Constituição assegura, segundo a análise da GloboNews:
- Sistema Único de Saúde (SUS) e Ministério Público.
- Igualdade de gênero e liberdade religiosa.
- Educação pública e gratuita.
- Demarcação de territórios indígenas sem marco temporal.
- Legislação de proteção ao meio ambiente.
- Direitos civis, liberdades individuais, liberdade de expressão e de imprensa.
A comentarista encerrou sua participação com um alerta sombrio sobre o resultado das urnas no primeiro turno, que garantiu uma base forte para o PL. “Houve um voto de confiança da população, expresso nas urnas no domingo, e agora esse cheque em branco parece estar começando a ser descontado ou escrito”, concluiu Flávia, classificando a intenção de mudar a Constituição como algo “efetivamente perigoso”.
A discrepância escancara uma Globo que tenta equilibrar os pratos: na TV aberta, um noticiário mais brando para não afugentar a massa de eleitores conservadores; na TV paga, um posicionamento duro e crítico para seu público segmentado.





