O xadrez da mídia: Band busca alternativas na ficção enquanto streaming se apoia no fascínio pelos crimes reais
O cenário dos meios de comunicação no país atravessa uma fase de reorganização profunda. Por um lado, as redes de televisão aberta lidam com um momento financeiro delicado e tentam criar saídas para diversificar a grade de programação e manter o público atento. Por outro, as gigantes do streaming descobriram nas investigações policiais e nas reconstituições de casos verídicos uma mina de ouro capaz de garantir picos de acessos e grande apelo de público.
Essa movimentação escancara a busca por faturamento e engajamento em uma época na qual as verbas publicitárias encolheram e a indústria audiovisual precisou ajustar as contas.
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A estratégia arriscada da Band na dramaturgia e o baque das ‘bets’
Para tentar se destacar em meio à concorrência acirrada da TV aberta, a direção da Band estuda oportunidades para ensaiar seu retorno ao segmento de dramaturgia. A ideia é abrir espaço para novos formatos, atrair diferentes perfis de telespectadores e criar opções comerciais para marcas que preferem se associar a conteúdos de ficção.
Contudo, encarar os custos altos de uma produção dramatúrgica exige cautela máxima no atual cenário do mercado:
- Mercado publicitário retraído: Grande parte das emissoras brasileiras encontra dificuldades para fechar o ano no azul, sofrendo com a redução de investimentos por parte dos grandes anunciantes.
- Enxugamento do patrocínio de apostas: As restrições e regras mais duras impostas às empresas de apostas esportivas provocaram uma queda brusca nas receitas das TVs. Como esses sites eram responsáveis por grandes aportes financeiros, bancar produções de ficção — que pedem alto investimento inicial e demoram a dar retorno — virou um movimento de risco elevado.
- Busca por parcerias estratégicas: Para viabilizar novos títulos, o canal precisa encontrar modelos de produção mais leves e firmar parcerias que dividam os custos de execução.
‘True Crime’ no topo: o streaming na cola de casos que marcaram o país
Se a televisão tradicional calcula os passos por conta dos custos, o mercado de plataformas por assinatura encontrou nas tragédias reais um motor inesgotável de audiência. O gênero focado em crimes reais virou a principal aposta de entretenimento digital do brasileiro.
Pesquisas da consultoria Parrot Analytics mostram que o público do Brasil concentra metade de toda a demanda por produções de crimes reais na América Latina. Essa busca intensa por detalhes de casos famosos deflagrou uma disputa entre os serviços de vídeo para adaptar histórias conhecidas do público.
- Fenômeno de acessos no Prime Video: A produção Tremembé alcançou o posto de título nacional mais assistido da história da plataforma no país. O serviço já trabalha em novos lançamentos da mesma linha, como as obras focadas nas investigações sobre PC Farias e a produção Tiros no Escuro.
- Força do catálogo da Netflix: A reconstituição sobre o caso Eliza Samudio ultrapassou a marca de 10,5 milhões de exibições em seis meses, enquanto a cinebiografia sobre Ayrton Senna alcançou 15 milhões no mesmo período. A plataforma também prepara o lançamento de um projeto focado no caso Eloá.
- Aposta na HBO Max: A plataforma lançou a série dramática sobre o assassinato de Ângela Diniz, com interpretação de Marjorie Estiano, reforçando a aposta no formato.
A grande dúvida entre especialistas é até quando o público manterá o interesse em alta sem que o acúmulo de lançamentos parecidos cause um esgotamento do gênero.
Disney+ aposta em ficção jovem e biografias de impacto
Correndo por fora da onda policial, o Disney+ direciona seus investimentos para tramas de ficção com apelo jovem e minisséries históricas.
A plataforma lançou a segunda temporada da produção romântica Amor da Minha Vida, estrelada por Bruna Marquezine e Sérgio Malheiros. Nos bastidores, a executiva Mónica Albuquerque lidera a criação de novos projetos nacionais, com destaque para uma obra inspirada na trajetória do britânico Ronald Biggs, famoso pelo assalto ao trem pagador, e outra produção dedicada a mostrar o papel das mulheres na história do jogo do bicho no Brasil.
O cenário do ‘cobertor curto’ para os próximos anos
O tom predominante tanto na TV aberta quanto no streaming é a prudência. A queda nos orçamentos obrigou os executivos a colocarem em revisão projetos previstos para o ciclo de 2027.
Com a necessidade de equilibrar os balanços financeiros, as empresas de mídia devem focar recursos em formatos testados, marcas consolidadas e projetos que ofereçam retorno comercial rápido e garantido.





