O SBT continua o seu esforço contínuo para exterminar de vez os enlatados tradicionais de sua programação diária. Após enfrentar uma verdadeira enxurrada de críticas vindas da imprensa especializada e das redes sociais, a direção precisou tomar atitudes urgentes. Como uma medida drástica de contenção de danos, o canal decidiu abrir um novo espaço para as clássicas novelas mexicanas. Outrora donas de horários de absoluto destaque, essas tramas latinas agora terão que sobreviver em plena madrugada televisiva.
A nova faixa dedicada aos dramalhões foi estrategicamente empurrada para a 1h30 da manhã, um horário de curtíssima visibilidade comercial. A estreia dessa nova configuração da grade já acontece na próxima segunda-feira, trazendo o polêmico remake de ‘A Usurpadora’ (2019). Por enquanto, a cúpula da emissora trata essa severa mudança de horário apenas como um teste de aceitação do telespectador. Caso a estratégia dê certo, as famosas produções latinas vão ficar restritas apenas a esta faixa noturna e ao horário das 14h.
Essa decisão marca o encerramento doloroso de uma era para os fãs fervorosos das produções da Televisa exibidas no Brasil. Durante décadas, essas histórias foram os grandes pilares de sustentação da audiência do canal no concorrido período da tarde. Agora, o rebaixamento para a madrugada evidencia uma clara tentativa de repaginar a identidade visual e o conteúdo da rede. Os telespectadores mais saudosistas precisarão lutar contra o sono se quiserem continuar acompanhando as tramas dramáticas vindas do México.
A mudança abrupta também gera incertezas sobre o futuro das parcerias internacionais firmadas pela rede paulista nos últimos anos. Com o escanteamento das produções estrangeiras, abre-se um vácuo imenso que precisará ser preenchido por formatos originais ou jornalismo ao vivo. O grande desafio será provar que a programação nacional consegue reter os números que os enlatados garantiam com enorme facilidade. Resta saber se o público fiel aceitará essa transição ou migrará definitivamente para os catálogos das diversas plataformas de streaming.
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O Cemitério de Programas e a Grade Desolada
A criação dessa nova faixa de novelas na madrugada traz consequências imediatas e fatais para outros projetos recentes da casa. Com a alocação dos dramalhões à 1h30, a rede encerrará definitivamente a faixa de atrações conhecida pelo público como ‘SBT Podnight’. Esse bloco de entrevistas em formato de podcast estava em cartaz na grade de programação desde o mês de fevereiro de 2024. A sua extinção abre uma nova vala no vasto cemitério de tentativas frustradas de modernização da grade noturna do canal.
Diante desse cenário caótico, praticamente todos os programas lançados pela rede naquele ano de reformulação foram enviados para o esquecimento. Atrações que prometeram revolucionar as tardes e noites, como ‘Chega Mais’ e ‘Chega Mais Notícias’, não resistiram à baixa audiência diária. Formatos de entretenimento caros como ‘É Tudo Nosso!’, ‘Circo do Tirú’ e ‘Sabadou com Virginia’ também já foram direto para a vala. O jornalístico ‘Tá na Hora’ e os infantis do ‘Luccas Toon’, junto com o noticiário ‘SBT Agro’, completam a amarga lista de fracassos.
A situação desoladora não demonstra sinais de melhoria neste ano de 2025, acumulando ainda mais baixas significativas na grade diária. O matinal ‘SBT Manhã’ e o clássico imbatível ‘Bom Dia & Cia.’ já não estão mais disponíveis no ar para o grande público. A ‘Sessão Dorama’, que tentou surfar na onda estrondosa das produções asiáticas, e o ‘Domingo Animado’ também tiveram seus fins decretados. A emissora parece viver uma eterna crise de identidade, testando e cancelando formatos numa velocidade que afugenta os principais anunciantes.
Em meio a essa verdadeira carnificina na programação da rede, muito pouca coisa conseguiu sobreviver aos cortes implacáveis da direção. Atualmente, restam no ar apenas o programa ‘Eita Lucas!’, o tradicional formato ‘SBT Repórter’ e o telejornal vespertino ‘Alô Você’. Vale ressaltar, inclusive, que este último noticiário policial segue na grade de programação, mas sem a presença do apresentador Luiz Bacci. O canal precisará de muita resiliência e criatividade financeira para reconstruir uma grade que atraia novamente o interesse dos telespectadores.
A Ameaça Crescente do Jornalismo da Band
Antes mesmo de sonhar em elaborar estratégias complexas para tentar retomar a cobiçada vice-liderança, o canal paulista tem problemas mais urgentes. Conforme já foi amplamente debatido pela crítica especializada de TV, o SBT precisa urgentemente ficar de olho no forte crescimento da Band. Ninguém disse que seria uma tarefa das mais fáceis estancar a sangria contínua de audiência e afastar a real ameaça do quarto lugar. A concorrente do Morumbi vem se consolidando como uma pedra no sapato diária, especialmente na faixa dedicada ao público masculino e factual.
A grade de programação esportiva e jornalística da Rede Bandeirantes vive um momento de audiência extremamente positivo e bastante consistente. Atrações fortemente consolidadas como o “Jogo Aberto” e “Os Donos da Bola” entregam números expressivos e faturamento alto durante as tardes. Na sequência da grade, o policial “Brasil Urgente” e o tradicional “Jornal da Band” mantêm o público sintonizado, dificultando muito a vida dos rivais. Esse bloco sólido de informação ininterrupta tem roubado preciosos décimos de audiência que antes pertenciam de forma absoluta à emissora de Silvio Santos.
Pelos lados da Band, os executivos sabem que é vital e estratégico também fortalecer as defesas do seu jornalismo em todos os setores. A emissora aposta alto na credibilidade histórica de seus âncoras para fidelizar o público exigente que busca notícias em tempo real e análises aprofundadas. O brilhante trabalho da jornalista Adriana Araújo, por exemplo, tem chamado bastante atenção dos críticos televisivos e dos telespectadores nos últimos meses. A sua forma única de conduzir a notícia se destaca positivamente, principalmente por ser um formato muito mais dinâmico, direto e totalmente espontâneo.
Enquanto a concorrente direta estrutura uma grade coesa e lógica, o SBT sofre duramente com as constantes alterações e a falta de hábito do telespectador. A disputa acirrada pelo cobiçado terceiro lugar no ranking de audiência na Grande São Paulo promete ser implacável ao longo de todo o ano. Se não houver uma forte reação rápida e devidamente planejada, a perda dolorosa da medalha de bronze poderá se tornar um triste caminho sem volta. A direção da emissora precisa entender rapidamente que o público atual exige estabilidade, alta qualidade e atrações que realmente dialoguem com a realidade do país.
Craque Neto Esmaga Galvão Bueno no Domingo
Um dos episódios mais emblemáticos e surpreendentes dessa disputa acirrada pela audiência aconteceu recentemente no cobiçado e rentável horário nobre dos domingos. O fato inusitado durou por apenas um minuto nos relógios, mas foi um minuto comemorado intensamente nos bastidores como se fosse uma verdadeira final de campeonato. A direção da Band entrou em estado de festa absoluta pela primeira vitória histórica do programa esportivo ‘Apito Final’, comandado pelo polêmico Craque Neto. O ex-jogador conseguiu a difícil proeza de ultrapassar os números registrados por ninguém menos que o lendário e consagrado narrador Galvão Bueno no SBT.
O veterano absoluto da locução esportiva nacional, que aparentemente não deixou tantas saudades assim em sua antiga emissora, enfrenta sérios problemas de aceitação do público. Em apenas uma semana de exibição intensa de seu novo projeto televisivo, Galvão perdeu impressionantes 33% do seu público cativo inicial na televisão aberta. Essa queda abrupta, vertical e muito preocupante jogou um verdadeiro balde de água gelada nos ânimos dos executivos e diretores da rede paulista. A contratação milionária que era tida por todos como um genial golpe de mestre agora se transforma rapidamente em uma enorme dor de cabeça comercial.
O péssimo desempenho comercial e de audiência do renomado locutor brasileiro acende imediatamente um sinal vermelho gigantesco nos longos corredores da empresa de comunicação. A alta cúpula da rede de televisão já não tem mais tanta certeza da capacidade de tração do veterano em atrair o grande público para a tela. Esse fator isolado é absolutamente crucial, pois o canal exibirá os aguardadíssimos jogos da próxima Copa do Mundo com total exclusividade na concorrida TV aberta. Se o principal nome escalado para as transmissões não empolga minimamente a audiência em seu programa solo, o bilionário faturamento do torneio corre sérios e reais riscos.
A inesperada vitória de Neto sobre Galvão representa muito mais do que um simples e isolado décimo a mais no consolidado ranking diário do Ibope. É a clara vitória de um formato popular, altamente opinativo e fortemente enraizado na cultura da emissora contra uma atração que ainda tenta tatear e encontrar sua identidade. O SBT apostou cegamente no peso inegável de um nome histórico, mas aparentemente esqueceu que a televisão moderna exige muito mais do que apenas um exercício de nostalgia. O público do domingo à noite provou de forma categórica que prefere a autenticidade sem filtros do ídolo corintiano do que os roteiros engessados e as falas totalmente previsíveis.
Uma Luz Inteligente com o SBT Brasil
Apesar de todas essas imensas turbulências corporativas e da avalanche de cancelamentos, nem todas as decisões recentes tomadas pela direção resultaram em retumbantes fracassos absolutos. Há, inegavelmente, uma pequena luz no fim do túnel escuro que traz um pouco de merecido alento para os dedicados profissionais que trabalham no departamento de jornalismo. A alteração pontual e inteligente de horário de exibição do ‘SBT Brasil’, que foi estrategicamente antecipado para às 19h30, mostrou-se uma tática comercial bastante promissora. Colocar o principal noticiário da casa, agora brilhantemente ancorado por Cesar Filho, mais cedo no ar trouxe uma necessária vantagem tática extremamente importante contra as rivais.
Essa específica manobra de engenharia de grade foi considerada por diversos especialistas de televisão como uma das poucas ideias realmente inteligentes da emissora nos últimos longos anos. Entrar no ar pontualmente na marca das 19h30 significa, na prática, iniciar a forte cobertura jornalística antes do término oficial dos tradicionais noticiosos locais da poderosa Globo. Essa malandra antecipação estratégica permite capturar facilmente o telespectador ansioso que busca as primeiras informações da noite antes do principal e temido jornal da concorrência começar. É uma genial rota de fuga do massacre do confronto direto, buscando inteligentemente um público que está justamente em fase de transição na sala de estar de casa.
No entanto, para que essa ousada jogada de mestre se consolide de vez e renda frutos realmente duradouros para os cofres, a emissora precisará adotar uma postura corporativa atípica. Se a rede tiver a extrema paciência necessária para não inventar de mudar o horário novamente em um surto, o telejornal poderá crescer de forma exponencial nesta faixa horária. O sagrado hábito de consumo em televisão é algo complexo que se constrói gradativamente com muito tempo, extensa repetição e entrega ininterrupta de um produto de alta qualidade visual. Qualquer inoportuna alteração abrupta agora, neste exato momento de ascensão, destruiria impiedosamente o pequeno e frágil avanço que o noticiário comandado por Cesar Filho conseguiu conquistar arduamente até o momento.
O tão sonhado sucesso a longo prazo das operações do SBT dependerá única e diretamente de sua capacidade gerencial de equilibrar a resiliência corporativa com a inovação rigorosamente controlada. Abandonar de vez os terríveis vícios do passado, como a dependência absurdamente exagerada dos enlatados e as inexplicáveis e repentinas mudanças de grade, é o primeiro e fundamental passo. A louvável aposta em nomes de peso da comunicação precisa vir sempre acompanhada de formatos modernos que realmente dialoguem com as reais expectativas do volátil telespectador contemporâneo brasileiro. Somente com rigoroso planejamento estratégico de médio prazo e total respeito ao público soberano, a emissora conseguirá, enfim, superar essa triste fase sombria e voltar a brilhar intensamente.








